segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Dez anos do euro

por Ilda Figueiredo


Portugal é um triste exemplo da prioridade dada às políticas monetaristas, ao cumprimento dos irracionais critérios do Pacto de Estabilidade, às orientações do Banco Central Europeu.
Este mês assinalaram-se os dez anos do euro, embora tenha sido um debate de fraco entusiasmo, apesar do optimismo do comissário Almunia no seu discurso no Parlamento Europeu. O mínimo que se pode dizer é que é impressionante continuar a ouvir a Comissão e os principais responsáveis da União Europeia a falar dos êxitos da Zona Euro, mesmo quando as próprias estatísticas demonstram o contrário, seja em termos de crescimento económico, seja de qualidade de vida das populações. Claro que os êxitos a que se referem são os aumentos dos lucros e os fabulosos ganhos que os grupos económicos e financeiros conseguiram durante estes primeiros dez anos da União Económica e Monetária.
Mas é inadmissível que, sistematicamente, esqueçam o agravamento das desigualdades sociais, o aumento do trabalho precário e mal pago, que atira cada vez mais milhões de trabalhadores para situações de pobreza, agravando a sua exploração e impedindo que tenham condições para garantir aos seus filhos uma vida digna.
Por isso, não espanta que o plano que a Comissão Europeia apresenta seja mais do mesmo: mais vigilância económica para garantir maior competitividade e estabilidade financeira aos grupos económicos, maior supervisão orçamental para pressionar à liberalização de serviços públicos e maior pressão e fiscalização para impedir aumentos de salários.
Ora, não se pode aceitar que a questão do controlo dos salários seja sempre a medida primeira que defendem, esquecendo que estes representam cada vez menor percentagem nos custos das empresas e do próprio rendimento nacional.
Portugal é um triste exemplo da prioridade dada às políticas monetaristas, ao cumprimento dos irracionais critérios do Pacto de Estabilidade, às orientações do Banco Central Europeu. É o agravamento do desemprego, a crescente precariedade das relações laborais e a degradação progressiva das condições de vida e de trabalho, com uma diminuição sucessiva dos salários reais, particularmente na função pública, a privatização e o encerramento de serviços públicos essenciais, o ataque à saúde pública e à educação.
Esta situação agravou-se após 2002, coincidindo com a entrada em circulação do euro. A verdade é que a estrutura económica portuguesa era demasiado frágil para suportar a aplicação uniforme de medidas monetaristas, que interessam aos países mais ricos e poderosos, e não têm em conta as debilidades económicas e sociais de outros. Ao deixar de poder utilizar a desvalorização do escudo para promover as exportações, ou a baixa das taxas de juro para acelerar investimentos, Portugal perdeu mecanismos de intervenção que agravaram a situação económica e social.
A obsessão do cumprimento do Pacto de Estabilidade, mesmo com a introdução posterior de alguma flexibilidade, serviu aos sucessivos governos portugueses de pretexto para intensificar políticas neoliberais, para o corte cego de investimentos públicos, o congelamento e perda do poder de compra dos salários, a manutenção de pensões de miséria, a redução de outras prestações sociais, e dificultou a própria utilização dos fundos comunitários, como aconteceu na agricultura. Contribuiu, igualmente, para a diminuição do PIB. Até a sua lenta recuperação está já ameaçada e Portugal continua a divergir da média comunitária, sem alteração à vista, se não houver uma ruptura com estas políticas.
O que estamos a viver é o resultado da insistência nestas políticas monetaristas, a que se vieram juntar as propostas da chamada Estratégia de Lisboa, com as liberalizações, designadamente nos serviços financeiros e áreas conexas, na energia, em certas áreas dos transportes, serviços postais e serviços em geral.
Há, entretanto, uma crescente pressão para novas regras da concorrência a cada vez mais serviços e concursos públicos, a harmonização de certos aspectos da tributação e também a pressão sobre as pensões e reformas e a saúde, visando a privatização de alguns serviços mais lucrativos, a que se junta a pressão para liberalizar os despedimentos sem justa causa, através da proposta de novas alterações do código laboral, ou seja, a aplicação da "flexigurança" à portuguesa.
Por isso, continuamos a defender uma ruptura com estas políticas monetaristas, a substituição do Pacto de Estabilidade por um verdadeiro Pacto de Progresso e Desenvolvimento Social, a aposta no investimento público e em serviços públicos de qualidade, a prioridade ao emprego com direitos, à produção e a medidas que dignifiquem quem trabalha, além do combate aos estatutos e orientações do BCE.
Mas, também por isso, teremos a intensificação de lutas pela defesa das conquistas de Abril, dos direitos dos trabalhadores, das condições de vida das populações, contra estas políticas neoliberais, de que é exemplo a manifestação nacional convocada pela CGTP, para o próximo dia 5 de Junho.

Deputada do PCP no PE


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    domingo, 18 de Maio de 2008

    A crise dos cereais

    Um dos grandes temas da actualidade é o da crise alimentar. O momento que se vive é de facto preocupante. Cerca de dois mil e quinhentos milhões de pessoas sobrevivem com menos de dois dólares por dia.

    Estes seres humanos e muitos outros dependem de pequenas rações diárias de arroz ou de trigo. Ainda que não tenham acesso aos grandes meios de comunicação social onde se produz o elevado e preocupado debate sobre as causas e as consequências da situação, sabem bem o que ela significa. Sentem-na na barriga, todos os dias.

    A especulação como motor dos aumentos de preços

    Os preços dos cereais estão em alta, com acréscimos da ordem dos 50% (no caso do trigo mole) a 80% (no caso das rações animais e comparando com o preço de há um ano atrás). Atrás deles vem o aumento do preço da carne, do leite, das massas alimentícias, etc. Isto tem a ver com o aumento da procura, com as condições climatéricas e as suas alterações que condicionam a produção agrícola, ou ainda com a opção política de produzir combustíveis a partir de cereais, desviando produções que deveriam servir para alimentar as populações, para fazer andar a frota automóvel. Mas fundamentalmente decorre da especulação com os preços do petróleo, e nos “mercados de futuros” de cereais.

    Ou seja, o preço dos cereais é determinado, não pelos sacrossantos mecanismos de mercado, mas pelas trocas realizadas na Bolsa de Chicago, onde o que se está a vender hoje, são os cereais que se irão produzir dentro de três ou quatro anos.
    É óbvio que vender e comprar sobre um bem tão incerto como os cereais, cuja produção está condicionada por factores que o homem não controla, abre espaço a todas as especulações. Para os senhores da grande finança internacional gerarem meios para mais especulação, vale tudo.


    Os infindáveis lucros da grande agro-indústria


    Neste quadro quem ganha? Ganham as grandes empresas da agro-indústria que dominam os meandros das negociações de Doha, da OMC, da União Europeia. Ganha, por exemplo, a multinacional Monsanto, uma das maiores corporações agro-alimentares do mundo, cujos administradores provêm directamente da Casa Branca ou para lá transitam em comissões de serviço, que quer impor os seus produtos, as suas sementes, os seus pesticidas e os seus métodos aos povos do mundo.
    A Monsanto, principal fornecedora mundial de Organismos Geneticamente Modificados, os famosos transgénicos, detém mais de 40% da área cultivada de milho, só no Brasil.

    Só no último trimestre de 2007, a Monsanto teve lucros líquidos na ordem dos 256 milhões de dólares, triplicando o seu resultado anterior.


    A destruição da agricultura nacional

    Não é possível esquecer quais as condições em que Portugal enfrenta esta crise. Portugal foi um país com uma significativa produção. Com a Reforma Agrária, nos campos do Alentejo abriu-se o caminho que garantia o trabalho, desenvolvia a produção de cereais e permitia a fixação da população. Nas terras da Beira e em Trás-os-Montes a produção familiar de aveia e outros cereais contribuía para a alimentação própria e dos gados da casa. O milho cresceu sempre nos campos do Minho e da Beira Litoral. O arroz teve fartas produções no Baixo Mondego, no Sorraia e no Litoral Alentejano.
    Mas as políticas agrícolas da União Europeia e a subserviência dos Governos nacionais levaram à destruição da agricultura nacional e ao abandono dos campos. Só nos últimos 20 anos desapareceram 250 mil explorações agrícolas.
    Aumento dos custos de produção, liberalização dos mercados, subsídios para não produzir, distribuição desigual dos apoios públicos que caiem nas mãos dos grandes agrários, encerramento de serviços, entrega dos silos de recolha dos cereais aos interesses privados, são algumas das razões desta situação.
    Assim, estamos hoje dependentes em cerca de 60% das importações de produtos alimentares.

    O capitalismo em causa

    Pequenos agricultores, pequenos proprietários e rendeiros, assistem espantados a esta procissão de notícias sobre a alta dos preços. Apesar dela, apesar de trabalharem de sol a sol, sejam os anos agrícolas bons ou maus, veem o valor dos seus produtos diminuir de ano para ano. Não são os agricultores os beneficiários destas políticas. Hoje vendem o milho ao mesmo preço que vendiam há 30 anos. Vendem os bezerros com 15 dias a menos de metade do valor de há 10 anos.
    O que esta crise alimentar põe a nu é a natureza preadora do capitalismo. Na ânsia de procurar sempre maiores lucros, o capital dirige as suas atenções para novos mercados, novos produtos. Ainda que isso ponha em causa a vida de milhões de seres humanos.
    De um lado estão as grandes multinacionais, o capital que suga as riquezas naturais e explora os povos de todo o mundo. Do outro lado da injustiça estão os pequenos produtores. Os que, face aos aumentos dos custos dos factores de produção, por um lado, e do esmagamento dos preços pagos pelos intermediários, por outro, se vêm a braços com a baixa acentuada dos rendimentos. E estão os que dependem dos cereais para sobreviver.

    O caminho é o da luta pela soberania alimentar e pelo desenvolvimento da agricultura nacional, pela alteração do uso e posse da terra, pela valorização da agricultura familiar, por um ruptura com as actuais políticas agrícolas.

    O caminho é o da luta pela superação do capitalismo.

    João Frazão
    www.avante.pt


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    sábado, 12 de Abril de 2008

    Abril foi uma Revolução libertadora

    Intervenção de Álvaro Cunhal
    No colóquio «25 de Abril, ontem, hoje e amanhã»
    19 de Abril de 1994


    Realiza-se este colóquio, aberto naturalmente ao debate, no quadro das iniciativas promovidas pelo Partido Comunista Português em comemoração do 20º aniversário da revolução de Abril.

    Comemoração significa, não apenas memória e lembrança, mas apreciação positiva do valor. A apreciação do nosso Partido fundamenta-se no conhecimento directo e na análise objectiva das situações e dos factos, na acção e na luta desenvolvida antes, durante e depois de Abril, no escrupuloso respeito pela verdade e nos objectivos e ideais que inspiraram e inspiram o nosso Partido ao longo dos 73 anos da sua existência e da sua luta.

    Duas palavras muito gerais e apenas introdutórias: a revolução de Abril foi uma revolução libertadora, com tão profunda transformação na vida nacional que se pode considerar um dos mais altos momentos da vida e da história do povo português e de Portugal.

    É nossa tarefa, e pensamos ser também tarefa de todos os democratas, combater firmemente a gigantesca campanha de falsificação da história actualmente em curso, informar e esclarecer o que foi a revolução, o que foi e o que é a política de destruição das suas conquistas e o que representam os valores de Abril para o futuro democrático e independente de Portugal.


    25 de Abril

    revolução libertadora


    A revolução de Abril libertou Portugal de quase meio século de ditadura. Ditadura militar de 1926 a 1933. Depois com Salazar ditadura fascista. Suprimidas as liberdades mais elementares. Censura à imprensa. Reprimida violentamente qualquer oposição. Copiada quase literalmente do fascismo italiano a orgânica corporativa. Polícia política (PIDE/DGS) para perseguir, prender, torturar, assassinar com torturas ou a tiro. Tribunais especiais condenando a mando da PIDE. Democratas mantidos com condenação ou sem ela longos anos nas prisões, atingindo em alguns casos mais de 20 anos. Partido único fascista (União Nacional/Acção Nacional Popular). Milícia fascista (Legião). Organização fascista e paramilitar da juventude (Mocidade Portuguesa).
    Salazar e depois Marcelo Caetano nunca ocultaram a sua ideologia fascista. Salazar gabava o génio político de Mussolini com cujo retrato na própria secretária se fazia fotografar. Mandava os seus Ministros, os seus militares, os seus polícias aprender na Itália fascista e na Alemanha fascista. Apoiou e ajudou o golpe fascista de Franco em Espanha. Apoiou e ajudou Hitler e Mussolini na guerra. Se em algumas conjunturas (derrota do fascismo na 2ª Guerra Mundial e crise geral da ditadura) foram lançadas manobras pseudodemocráticas, o objectivo não era abrir caminho à democracia, mas iludir o povo, dar uma válvula de escape ao descontentamento e revolta popular e depois voltar às mesmas formas de repressão.

    O Governo de Marcelo Caetano foi formado já em pleno período da crise geral da ditadura fascista.

    O processo de formação e domínio dos grandes grupos monopolistas, provocou a rápida redução da base de apoio social do fascismo.
    A guerra colonial condenada à derrota provocava a oposição do povo, particularmente da juventude, e acentuava a convergência da luta do povo português contra o fascismo e dos povos das colónias portuguesas contra o colonialismo atacando a ditadura em Portugal e em África.
    A luta popular em todas as frentes (movimento operário, movimento democrático, movimento dos estudantes, luta dos intelectuais, luta contra a guerra colonial incluindo nas forças armadas) atingiu um rápido ascenso e radicalização.
    Todos estes factores abalaram profundamente as esferas do poder, sucedendo-se no campo fascista as divisões e dissidências (Craveiro Lopes, Botelho Moniz, Humberto Delgado, Henrique Galvão, Sá Carneiro e outros).
    Sentindo a crescente ameaça sobre a ditadura e temendo a explosão revolucionária, Marcelo Caetano vacilava entre concessões de "liberalização" do regime sem alterar a sua natureza ditatorial e a continuação do recurso à repressão fascista tal como antes. Orientou-se neste segundo sentido. A verdade é que nenhuma solução do regime e da guerra colonial era já possível a partir do governo fascista. A crise geral da ditadura evoluiu para uma situação revolucionária na qual o derrubamento da ditadura pela força se pôs na ordem do dia.

    Esse dia chegou em 25 de Abril.

    Durante 48 anos, o PCP e outros democratas, os trabalhadores, o povo português tiveram como elemento central da sua luta a resistência antifascista e a luta pela liberdade. A luta antifascista foi o eixo central da luta política e o cimento da unidade democrática. A definição da ditadura como ditadura fascista, a luta popular e democrática como luta antifascista, as organizações, como organizações antifascistas estão gravadas na memória e na vida nacional durante quase meio século, não apenas pelas palavras ditas e escritas, mas pela história de 48 anos de perseguições, de prisões, de torturas, de condenações, de assassinatos e de luta heróica do nosso povo.
    Na grande operação de branqueamento da ditadura não é a utilização de especulações teóricas elaboradas em gabinetes que pode alterar a sua justa definição como ditadura fascista. Assim foi considerada pelo povo. Assim ficará na história.

    O Povo-MFA

    e a questão do poder


    Quando falamos do 25 de Abril falamos muito justamente do dia 25 de Abril de 1974. É uma data. Uma data memorável. O dia em que os capitães do MFA empreenderam o heróico levantamento militar que derrubou o governo fascista. O MFA, apesar das suas contradições, tornou-se desde esse momento uma força fundamental para a configuração, instauração e institucionalização do novo regime democrático.
    A revolução de Abril não foi porém apenas esse acto heróico e decisivo. A revolução de Abril não foi apenas um acto. Foi um processo. Ao levantamento militar sucedeu no imediato o levantamento popular que não se limitou a apoiar os militares, mas, com a sua intervenção própria e autónoma, passou a ser, a par da componente militar, uma força motora e um elemento determinante da revolução democrática.
    A aliança Povo-MFA constituiu uma realidade objectiva resultante da conjugação dos levantamentos militar e popular, da estreita e fraterna ligação que rapidamente se estabeleceu entre o povo e os militares, na acção, na vida, na intervenção irresistível para pôr termo ao fascismo e para exercendo a liberdade, avançar no caminho da democracia.
    A liberdade e a democracia não foram concedidas nem oferecidas. Foram conquistadas pela dinâmica conjugada da luta das massas e dos elementos progressistas do MFA. A democratização da vida nacional até à institucionalização jurídica do novo regime democrático assentou na legitimidade revolucionária. Foram igualmente legítimas a acção revolucionária do MFA e a intervenção revolucionária das massas populares. A questão do poder político colocou-se inevitavelmente no quadro desta preponderante dinâmica.

    Trata-se de uma das questões mais originais e complexas da revolução de Abril. Porque, derrubado o governo fascista e a ditadura fascista, não houve nenhuma força que, com o seu programa próprio e a sua força própria, tenha assumido o poder. Não houve tão pouco um movimento unitário de forças que o tenha feito. Desde a primeira hora, nos órgãos superiores militares e civis de carácter provisório logo a seguir instaurados, revelaram-se profundas divergências quanto a objectivos fundamentais da revolução antifascista incluindo objectivos imediatos. Desde a primeira hora, tanto na Junta de Salvação Nacional e no MFA como no I Governo Provisório, manifestaram-se contradições e conflitos acerca das decisões a tomar ou seja acerca da democracia a instaurar e acerca do exercício do poder e a quem cabia esse exercício.
    À Junta de Salvação Nacional constituída no imediato como supremo órgão de soberania foram chamados alguns generais reaccionários. No I Governo Provisório, a par de representantes dos partidos democráticos, nomeadamente PCP, PS e MDP, entraram Sá Carneiro e outros dirigentes da ala liberalizante da ditadura que acabava de ser derrubada. No MFA, a par dos "capitães" progressistas (eles próprios sem uma identidade política comum) tinham força não desprezável elementos que iam desde uma afirmada direita a um esquerdismo anarquizante.
    Desta situação resultaram inevitavelmente a criação e a multiplicação de centros de decisão, a agudização dos conflitos, o carácter determinante da correlação de forças a nível militar e popular e a irregularidade do processo de criação, instauração e institucionalização do novo regime democrático.
    Neste contexto, ultrapassando as hesitações dos contraditórios órgãos do poder, as forças motoras da revolução - a componente militar e a componente popular - determinaram as conquistas democráticas e a natureza, o âmbito e as características da futura democracia portuguesa.


    As conquistas democráticas e o novo regime


    O curso da democratização da sociedade portuguesa tem de entender-se no contexto de uma verdadeira revolução popular e militar inteiramente justificada e legítima e não como alguns pretendiam por decisão de um qualquer governo de transição de duvidosa legitimidade, com um programa de liberalização da ditadura fascista mantendo o poder económico dos monopólios e latifundiários. O PCP havia definido no seu Programa aprovado no VI Congresso (1965) os objectivos fundamentais da revolução antifascista: a instauração de um regime democrático, a liquidação do poder dos monopólios e a promoção do desenvolvimento económico, a reforma agrária na zona do latifúndio, a elevação do nível de vida das classes trabalhadoras e do povo em geral, a democratização da instrução e da cultura, a libertação de Portugal do imperialismo, o reconhecimento dos povos das colónias do direito à imediata independência e uma política de paz e amizade com todos os povos.
    Se as mais notáveis conquistas da revolução democrática concretizaram muitos desses objectivos, não foi por qualquer imposição do PCP mas porque eles correspondiam a uma necessidade imperativa para pôr fim ao poder político e económico da ditadura, a medidas essenciais de democratização, de desenvolvimento e de melhoria das condições de vida do povo, a aspirações profundas do povo português, embora nem sempre presentes na consciência política.
    A própria dinâmica de massas foi em si mesma uma expressão de democracia participativa cujas formas e experiências vieram a ser institucionalizadas como elementos constitutivos da nova democracia política. Foi uma contribuição decisiva para o reconhecimento de um quadro de direitos e liberdades dos cidadãos, de uma democracia política avançada, de um poder local democrático descentralizado e ligado ao povo.

    Numa situação em que se decidia da vitória ou da derrota da democracia, as massas populares em movimento, com destacado papel da classe operária, deram uma brilhante demonstração da sua criatividade e da sua capacidade de intervir para assegurar a normal actividade económica e dotar o país de novas estruturas depois institucionalizadas. O controle operário ou controle de gestão em centenas de empresas, sistemas autogestionários, cooperativas, UCPs.

    Qualquer estudioso que com objectividade analise o processo da revolução de Abril terá de concluir que a profundidade das transformações, reformas e conquistas democráticas da revolução foi acelerada pela activa resistência das forças do passado fascista e pelas tentativas sucessivas de imporem um novo poder ditatorial e impedirem o curso da democratização da vida nacional. O grande capital e as forças fascistas e reaccionárias, incapazes de conterem a dinâmica revolucionária que se revelava irresistível, procuraram logo após o 25 de Abril por um lado, preparar e lançar golpes contra-revolucionários e por outro lado estrangular economicamente a democracia nascente. Transferiram capitais para o estrangeiro. Descapitalizaram empresas. Anularam encomendas. Lançaram fogo às searas. Levaram milhares de cabeças de gado para Espanha. Foram os trabalhadores, foi o povo que nessa situação asseguraram a gestão em centenas de empresas e as actividades económicas do país.

    As grandes conquistas democráticas no que respeita às estruturas socioeconómicas (nomeadamente as nacionalizações e a reforma agrária) não só correspondiam à criação de uma nova base do desenvolvimento como à necessidade de medidas de defesa da economia e das liberdades alcançadas.
    A guerra implacável e criminosa conduzida contra estas grandes conquistas democráticas e que levou à sua liquidação não destrói nem a sua validade nem os resultados então alcançados numa situação tão complexa como a da efectiva transformação revolucionária de elementos basilares do sistema socioeconómico.
    A revolução de Abril confirmou na vida que as quatro vertentes da democracia (a política, a económica, a social e a cultural) são inseparáveis como vieram a ser inseparáveis essas quatro vertentes nas ofensivas antidemocráticas do processo contra-revolucionário.
    Inseparáveis de uma democracia política avançada e das reformas das estruturas socioeconómicas, a revolução significou novos princípios, reformas e medidas nos campos social e cultural. Novos direitos dos trabalhadores, das mulheres, da juventude, dos reformados, dos deficientes, soluções progressistas nos domínios da saúde e do ensino, abertura à criatividade e fruição culturais. Entre os grandes feitos da revolução de Abril conta-se o fim da guerra colonial e o reconhecimento aos povos das colónias do direito à imediata independência. Na história de Portugal ficará para sempre inscrito a letras de ouro esse momento em que, depois de séculos de exploração e opressão colonialista pelo Estado português, o povo português, em luta contra a ditadura fascista, e os povos das colónias portuguesas em luta contra a opressão colonial, depois de muitos anos de uma guerra injusta, se encontraram mutuamente solidários na conquista da liberdade e na conquista da independência.
    Todas as conquistas revolucionárias foram reconhecidas pela Assembleia Constituinte resultante do sufrágio universal como elementos constitutivos do novo regime democrático. Assim figuram na Constituição aprovada em 1976. Quem a aprovou não foram apenas os deputados do PCP. Foram também, os votos dos deputados do PS e do PPD.

    É de lembrar que o carácter anticapitalista da democracia a instaurar, as nacionalizações e a reforma agrária, assim como uma sociedade socialista em Portugal, não eram objectivos inscritos apenas no Programa do PCP. O PS com Mário Soares inscreveu-os também na sua Declaração de Princípios aprovada no Congresso realizado em Dezembro de 1974. E o PPD com Soares Carneiro inscreveu-os no seu Programa aprovado no Congresso Nacional realizado em Novembro do mesmo ano.

    Desde a primeira hora

    resistência à revolução democrática


    Os órgãos provisórios do poder político tiveram à partida uma composição unitária. Tendo consciência das contradições e das divergências existentes, a orientação do PCP desde a primeira hora foi tentar a concretização da aliança Povo-MFA, a unidade dos trabalhadores e das massas populares em movimento e um caminho comum de todos os democratas de forma a fazer avançar a democratização da vida nacional.
    Houve porém um factor, também desde as primeiras horas, que contrariou uma tal possibilidade, perturbou profundamente o curso da instauração do novo regime democrático e conduziu a uma rápida radicalização de posições, a uma aceleração da desestabilização militar, política e social e a rupturas irreparáveis no próprio campo inicial do 25 de Abril. Esse factor foram as tentativas da direita reaccionária, logo após o dia 25 de Abril para tomar ditatorialmente conta do poder e impedir a democratização da vida nacional que desde logo se revelou impetuosa e irresistível.
    É de lembrar que, derrubado o governo fascista e formada a Junta de Salvação Nacional, o Presidente designado, general Spínola, pretendeu impôr a aplicação do ponto do programa do MFA, ultrapassado pela realidade, de que só seriam permitidas "associações políticas" que viessem a ser "embriões de futuros partidos", querendo assim impedir a imediata legalização dos partidos políticos, alcançada de facto no próprio dia 25 pela acção das massas populares apoiadas por elementos progressistas do MFA.

    É de lembrar que Spínola procurou manter a PIDE/DGS em funções vindo declarar logo no dia 26 que tinha "chamado a atenção da DGS" e que estava seguro de que a DGS "passará a agir de forma a que não mereça mais quaisquer reparos do povo português" (as palavras são dele)! É de lembrar que chegou a nomear um pide para novo director da PIDE. É de lembrar que pretendia, não proceder à imediata libertação dos presos políticos, mas à sua filtragem com critérios que é de presumir quais seriam mantendo a PIDE em funções.

    Foi o povo, apoiado em elementos progressistas no MFA, que conquistou no imediato a liberdade dos cidadãos e dos partidos, que assaltou as sedes da PIDE e extinguiu essa corporação de criminosos, que cercou as prisões e libertou os presos. Ainda actualmente as forças reaccionárias insistem em falar em tentativas do PCP para tomar conta do poder e instaurar uma nova ditadura. Trata-se de sinistras falsidades. Houve de facto, desde os primeiros dias após o dia 25 de Abril e depois ainda em 1974 e 1975, tentativas de ruptura da composição unitária dos órgãos provisórios do poder e de tomada do poder. Tais tentativas não foram do PCP, mas dos elementos reaccionários que participavam nos órgãos do poder militar e político provisório. Foram tentativas e golpes não para assegurar, mas para impedir a transformação democrática da sociedade portuguesa. Foram tentativas e golpes não para assegurar no imediato os direitos dos cidadãos e a vida democrática em curso mas para travar a conquista imediata das liberdades democráticas e impôr no imediato novas formas de poder ditatorial.

    O que os elementos reaccionários na JSN e no Governo não podiam suportar era que a classe operária, os trabalhadores e o povo tivessem uma palavra a dizer e que estivessem a dizê-la, que aparecessem com a pujança logo bem demonstrada nas gigantescas manifestações do 1º de Maio, nomeadamente no comício de Lisboa, e que o PCP se revelasse à luz do dia como um forte partido nacional, o grande partido da resistência antifascista e da luta pela liberdade e a democracia ao longo de dezenas de anos de terror, um partido ligado às massas e participando no Governo.
    O general Spínola foi a partir desse momento a figura central, o instigador e propulsor da conspiração contra-revolucionária, de tentativas de golpes de palácio, de pronunciamentos e golpes militares, de redes e atentados bombistas. Honra lhe seja feita. O general declarava os seus objectivos, conspirou e arriscou, ao contrário de outros que, comprometidos com ele, até hoje ocultaram as suas responsabilidades.

    Golpes contra-revolucionários


    Poucos dias depois da formação do I Governo Provisório, Spínola tentou nos bastidores um primeiro golpe contra-revolucionário, o chamado "golpe Palma Carlos".
    No dia 13 de Julho numa reunião realizada na Manutenção Militar acusa a Comissão Coordenadora do MFA de querer instaurar uma ditadura de "tipo socialista" e reclama plenos poderes. Convidado a participar nessa reunião, Sá Carneiro, então Ministro, ataca o movimento operário e a aliança Povo-MFA, exige segurança para os capitalistas e defende a proposta de plenos poderes a Spínola incluindo o de declarar o estado de sítio. A tentativa de golpe concretiza-se poucos dias depois. O golpe falhou e foi formado o II Governo Provisório tendo como Primeiro Ministro Vasco Gonçalves.
    Dois meses depois, em 28 de Setembro, Spínola tenta novo golpe que ficou conhecido pelo da "maioria silenciosa". Intensa preparação. Apoio declarado de Sá Carneiro e do PPD, de Galvão de Melo, membro da JSN, de outros militares e de numerosos partidos fascistas e fascizantes criados após o 25 de Abril. Um milhão de cartazes. Provocações e desordens. Os grupos monopolistas do tempo do fascismo (MDEs) prometem 120 milhões de contos e 100 mil novos postos de trabalho se o golpe triunfasse. Tentativa de golpe colonialista em Moçambique. Motim dos pides presos na Penitenciária. Grosseira provocação ao Primeiro Ministro na Praça do Campo Pequeno. Mobilização das forças de direita a nível nacional para uma gigantesca concentração em Lisboa, que concluiria pela tomada de plenos poderes por Spínola para "salvar a Pátria". Nas vésperas do anunciado golpe, Spínola convoca o Conselho de Ministros para Belém e faz o seu ultimato.

    Numa grandiosa mobilização, as massas populares, com o PCP, com o movimento sindical, com outras formações civis progressistas, cortaram estradas, impediram o acesso à capital, impediram a manifestação e derrotaram o golpe. Spínola e outros três membros da Junta foram demitidos e o governo saiu reforçado.
    O golpe militar de 11 de Março de 1975, também preparado com uma intensa acção política, conspiração militar e provocações falhou igualmente. O bombardeamento e cerco do RAL.1 por pára-quedistas terminou com o povo a rodear, a dissuadir e a convencer os soldados e o comandante da unidade a negar a rendição. Spínola fugiu para Tancos, de Tancos para Espanha e de Espanha para o Brasil, onde continuou a conspirar.
    Derrotadas todas essas tentativas, um novo passo foi dado na escalada: o terrorismo bombista. Desencadeado pela organização terrorista MDLP e incitado tanto por fascistas declarados como pelo CDS, o PPD e o PS desempenhou importante papel na acção contra-revolucionária. Declarações recentes de operacionais do terrorismo (Alpoim Calvão, Monteiro, R. Moreira e um ex-inspector da PIDE) confirmaram a chefia de Spínola e começaram a levantar o véu de compromissos e cumplicidades que até hoje não foram confessadas.

    O terrorismo bombista conjugado com conspirações militares, o anticomunismo do PPD e do PS, espectaculares provocações e um trabalho sistemático de intriga e divisão do campo democrático, deveria conduzir a um novo golpe visando a liquidação do MFA, o isolamento e repressão do PCP e à interrupção do processo de democratização do país.

    Sucessivas divisões, confrontos, golpes internos, alterações hierárquicas, rupturas, sublevações dividiram e enfraqueceram progressivamente o MFA. Enquanto os chamados "moderados" (Grupo dos Nove) apoiados pelo PS e PPD se aliaram à direita militar, a Esquerda militar sofria pressões e influências do esquerdismo aventurista.
    A aliança do PS com a direita e as divisões e conflitos nas forças armadas foram decisivas para o êxito do golpe de 25 de Novembro.
    Do golpe resultou a liquidação do MFA, a perda da componente militar da revolução e uma nova correlação de forças que criou condições para a formação de governos com uma política contra-revolucionária.

    Se logo a seguir ao 25 de Novembro os militares mais reaccionários não levaram por diante a sua intenção de ilegalizar o PCP, o movimento sindical e outras forças progressistas foi porque o PCP tinha procurado tenazmente uma solução política para a crise politico-militar e porque os militares "moderados", que desempenharam no golpe um papel decisivo, compreenderam que, se isso sucedesse, se seguiria também a sua liquidação política e a instauração de uma nova ditadura.
    Isto explica o facto à primeira vista surpreendente de, após o 25 de Novembro, o PCP continuar no governo e até com maior número de membros.
    De lembrar que, sempre que falharam as tentativas de tomar conta do poder a reacção inventava que o PCP é que tentara um golpe.
    Falhou o golpe do 28 de Setembro? Logo lhe chamaram uma "inventona" ou "intentona" do PCP. Falhou e foi derrotado o golpe militar do 11 de Março? O PPD, que apoiara a tentativa de golpe, logo afirmou no seu jornal "Povo Livre" (3.12.75) que o 11 de Março fora "uma inventona fomentada por oficiais e forças ligadas ao PCP". Na mesma linha, Spínola diria ainda um ano mais tarde ("O Diabo", 12.8.76) que o 11 de Março fora "uma hábil manobra montada pelo PC em combinação com os serviços secretos de certos países estrangeiros". E agora aparece quem venha afirmar que também o 25 de Novembro foi um golpe do PCP. Chama-se a isto fazer o mal e a caramunha.

    O caminho da destruição

    das conquistas de Abril


    O 25 de Novembro de 1975 criou condições para o avanço e a aceleração dos planos contra-revolucionários.

    A reacção concentrou então a sua linha de acção na continuação da intriga e divisão das forças democráticas e da desestabilização militar, política, económica e social com vista a impedir a aprovação e a ratificação da Constituição da República. Só não conseguiram este objectivo porque o Presidente da República, general Costa Gomes, cuja urgente demissão pretendiam forçar, foi à própria Assembleia assistir à aprovação da Constituição e aí mesmo procedeu à sua ratificação (2.4.1976).
    Encerrando no plano jurídico o período revolucionário, a Constituição elaborada e aprovada em 1976 pela Assembleia Constituinte eleita por sufrágio universal em 1975, institucionalizou e inscreveu como irreversíveis as grandes conquistas democráticas. Passou a haver uma nova legitimidade: a legitimidade constitucional.
    Surge então uma nova contradição que marca a vida política nacional desde então. Aqueles mesmos que aprovaram a Constituição empreenderam, uma vez no governo, uma política de destruição e liquidação das grandes conquistas democráticas.
    As primeiras eleições para a Assembleia da República (25.4.1976) tiveram resultados um tanto inesperados. O PPD perdeu 200 000 votos. O PS perdeu 260 000 votos. O PCP aumentou 70 000 e passou de 30 para 40 deputados. PCP e PS em conjunto obtiveram a maioria na Assembleia da República (147 lugares no total de 263). Havia condições institucionais para procurar uma solução contra o avanço da reacção mas o PS, no prosseguimento da acção anterior, uma vez mais se aliou à direita. Após as eleições presidenciais (27.6.76) nas quais o PCP sofreu um revés dá-se a formação do governo do PS sozinho (23.7.76), governo minoritário apoiado pela direita, que marca o lançamento da ofensiva sistemática contra as conquistas de Abril. O Governo do PS tendo como Primeiro Ministro Mário Soares, declarou inicialmente no seu programa defender as conquistas da revolução. As orientações e as medidas tomadas foram em sentido contrário. Com o governo PS sozinho começa o que classificámos na altura a política de recuperação capitalista, agrária e imperialista, ou seja o desencadeamento do processo contra-revolucionário violando abertamente a Constituição e a legalidade democrática.

    Sucessivos governos (do PS, do PS/CDS, de iniciativa presidencial, do PS/PSD, do PSD/CDS, do PSD) prosseguiram a ofensiva contra-revolucionária tendo como objectivo estratégico a destruição das grandes conquistas da revolução de Abril (nacionalizações, reforma agrária, controle de gestão e outros direitos dos trabalhadores, poder local democrático e outras) e a restauração do capitalismo monopolista. Esse processo desenvolve-se há já 18 anos, não está terminado e é o governo do PSD de Cavaco Silva que se propõe terminá-lo.
    O facto de que as grandes conquistas democráticas foram realizadas num curto espaço de tempo (1974/1975) e de que a sua destruição já leva 18 anos sem estar terminada significa que elas correspondiam a necessidades objectivas e a aspirações profundas de vastíssimos sectores da população e representaram progressos notáveis no reconhecimento de direitos e na melhoria das condições de vida do povo português.

    O governo do PSD

    Fase adiantada da contra-revolução


    Como experiência rara, se não única, a revolução de Abril revelou que as massas populares em movimento, mesmo sem o poder político, podem realizar profundas transformações progressistas da sociedade. A evolução da situação confirmou entretanto um já velho ensinamento: que se o poder cai nas mãos da reacção é inevitável o desenvolvimento de um processo contra-revolucionário de destruição das conquistas democráticas, e de reconstituição e restauração de soluções e valores do passado.
    A contra-revolução significou e significa uma política antidemocrática nas quatro inseparáveis vertentes da democracia (a económica, a social, a cultural e a política).
    A reconstituição, restauração e domínio dos grandes grupos monopolistas, a centralização e a acumulação acelerada de capitais, tem como elementos constitutivos o esbulho de bens e dinheiros do Estado, os escândalos das privatizações e da restauração da propriedade latifundiária, a entrega ao estrangeiro de alavancas fundamentais da economia nacional, o agravamento da exploração dos trabalhadores, o desemprego, os despedimentos em massa, o trabalho infantil, a liquidação de direitos sociais, as reformas de miséria, a discriminação das mulheres, o desprezo pelos interesses e o futuro da juventude, o alastramento das áreas de pobreza, o retrocesso cultural e a veloz perversão da democracia política.
    Pretensos ideólogos e comentadores afirmam que o essencial conquistado em 25 de Abril foi a democracia política. Sem dúvida que foi uma conquista fundamental. A democracia política conquistada pela revolução está porém a ser pervertida em aspectos essenciais. Com a governamentalização e absolutização do poder. Com a supressão da fiscalização da acção governativa. Com a impunidade dos governantes por ilegalidades e corrupção. Com a partidarização pelo PSD do aparelho do Estado. Com a liquidação de direitos dos trabalhadores. Com a instrumentalização mais abjecta de grandes órgãos de comunicação social. Com a violação sistemática da legalidade.
    A perversão da democracia política não surge por acaso. É uma condição da reestruturação e restauração do capitalismo monopolista e da sobrevivência do próprio governo.

    Acompanhando a ofensiva antidemocrática nas quatro vertentes da democracia, o governo de Cavaco Silva prossegue uma atitude de submissão dos interesses portugueses a interesses estrangeiros. Decidindo com a colaboração do PS a incondicional ratificação do Tratado de Maastricht, Cavaco entrega ao estrangeiro poderes e competências fundamentais da soberania e independência nacionais. Aceita para Portugal um lugar discriminado, periférico e submisso na União Europeia, recebendo de instâncias supranacionais de carácter federalista dominadas pelos Estados mais ricos e poderosos ordens de cumprimento obrigatório para a sua política económica, industrial, agrícola, de pescas, financeira, orçamental, externa, de defesa, de segurança, de emigração.

    Agora, ao concorrerem às eleições para o Parlamento Europeu, o PS e o PSD para não perderem votos gritam que sempre estiveram contra a evolução da Europa para o federalismo. O votos que deram para ratificação do Tratado de Maastricht aí estão para os desmentir.

    O resultado da política do governo PSD não foi o proclamado "sucesso" nem o anunciado "oásis" na Europa, mas uma profunda crise económica e social, a destruição do aparelho produtivo, a recessão, zonas desertificadas, um futuro incerto para o povo e o país. Com tal política Portugal não anda para a frente antes é obrigado a uma marcha atrás na história.

    É uma vergonhosa falsificação dos factos atribuir a crise profunda e o descalabro do país à revolução de Abril e a factores externos, quando a causa directa é a política de direita, a política contra-revolucionária, a política de destruição das conquistas democráticas da revolução de Abril.

    Uma alternativa democrática para superar a crise e resolver os gravíssimos problemas existentes não é possível numa linha de restauração de elementos e valores do passado anterior ao 25 de Abril mas na projecção das experiências e valores da revolução de Abril num programa capaz de assegurar o futuro democrático e independente de Portugal.


    A revolução de Abril

    No futuro de Portugal


    Coloca-se às forças democrática e ao povo português a tarefa de impedir que as forças reaccionárias instaladas no poder continuem a sua obra já adiantada de destruição da democracia instaurada com a revolução de Abril, impedir que conduzam Portugal a um sistema e a um regime de exploração, de opressão social e política, a um verdadeiro desastre nacional.

    O futuro democrático e independente de Portugal não pode ser assegurado ressuscitando estruturas, princípios e soluções que vêem do 24 de Abril, mas sim, como muitas vezes se tem dito, nos caminhos que Abril abriu.

    A revolução de Abril trouxe-nos numerosos ensinamentos e lições que enriqueceram as nossas análises, estimularam criativos desenvolvimentos teóricos, permitiram correcta interpretação e resposta ao mundo em mudança e possibilitaram a definição mais rigorosa dos nossos objectivos e do nosso Programa. A situação internacional e a situação nacional na actualidade são muito diferentes do que eram 20 anos atrás. As mudanças trouxeram consigo experiências positivas e negativas e novas realidades com novos problemas que exigem novas soluções. A necessária estruturação, dinamização e eficiência do aparelho produtivo parte agora em sectores fundamentais (banca, indústria, agricultura, pescas) de potencialidades profundamente afectadas. A integração na União Europeia com Maastricht cria fortes obstáculos ao nosso desenvolvimento que só um governo, uma política e uma atitude verdadeiramente nacionais podem superar. Não se trata pois de repetir literalmente a experiência passada.

    Tendo em conta a diferença de situações, os valores de Abril que criaram profundas raízes na sociedade portuguesa, correspondem entretanto em muitos aspectos fundamentais a orientações válidas e constituem elementos integrantes de qualquer política verdadeiramente democrática alternativa à actual política de direita.
    Não é do interesse de Portugal e do povo português que, no prosseguimento da destruição das conquistas e valores de Abril, tenhamos no futuro um regime político de liberdades discricionadamente limitadas e reprimidas e um poder absolutizado de cariz autoritário. A economia nacional dominada e submetida aos interesses egoístas de alguns grupos de grandes capitalistas. A exploração agravada. A liquidação de direitos dos trabalhadores e de direitos sociais. A acumulação de riqueza num lado e a acumulação de miséria no outro. A regressão cultural e a perda de elementos constitutivos da própria soberania e independência.

    É do interesse de Portugal e do povo português que salvaguardando e projectando no futuro os valores de Abril, a democracia seja assegurada e aprofundada nas suas vertentes política, económica, social e cultural e no quadro de uma quinta vertente condicionante - a independência e soberania nacionais.

    Tais são as grandes linhas, aqui apenas ligeiramente apontadas, de uma política democrática que, ao comemorar Abril, propomos ao povo português. Um regime de liberdade, no qual o exercício das liberdades e direitos dos cidadãos sejam assegurados sem discriminações, com igualdade de oportunidades e dispondo de uma comunicação social pluralista, democrática e responsável. No qual um Estado democrático em que a estrutura, mecanismos de fiscalização democrática e sistema e leis eleitorais, impossibilitem o abuso, a absolutização e a impunidade do poder e compreendam a descentralização de competências, um poder local democrático, formas de participação directa do povo, uma justiça democrática, forças armadas com o primado da defesa da independência e da integridade territorial e a autonomia das Regiões Autónomas no quadro da unidade nacional.
    Um desenvolvimento económico que responda aos interesses nacionais e à solução dos grandes problemas sociais, o que exige uma economia mista com um dinâmico Sector Empresarial do Estado nos sectores básicos e estratégicos, a reorganização, especialização, modernização e dinamização do aparelho produtivo, uma reforma agrária na zona do latifúndio, a mobilização dos recursos e potencialidades nacionais, o aumento da produção e substancial redução dos grandes défices energético, alimentar, de bens de equipamento e tecnológico.

    Uma política social que restaure e aprofunde direitos dos trabalhadores que estão a ser liquidados, que promova o melhoramento das condições de vida do povo, que garanta os direitos das mulheres, dos jovens e dos reformados, que cumpra os deveres do Estado na solução dos problemas da saúde, do ensino, da habitação, da segurança social, da defesa do meio ambiente, que ponha fim às grandes discriminações e flagelos sociais.

    Uma política cultural, de educação e do ensino que, nas múltiplas áreas da sua intervenção e com as estruturas e recursos adequados, garanta a todos os cidadãos o acesso ao conhecimento, a concretização das suas vocações e potencialidades, à livre fruição e criação culturais.

    Uma política verdadeiramente nacional, seja na política interna, seja com uma política externa de segurança e defesa, de relações diplomáticas e económicas, determinada pelo primado da defesa dos interesses nacionais e da independência e soberania nacionais, pela firme recusa a aceitar ser Portugal um país submetido ao estrangeiro segundo os termos de Maastricht e igualmente pela não menos firme determinação de Portugal assumir o pleno e irrecusável direito de decidir livremente o seu próprio regime, o seu próprio governo e o seu próprio futuro.

    As comemorações do 20º aniversário de Abril

    E a falsificação da história


    Nós os comunistas e connosco muitos outros democratas comemoramos o 20º aniversário do 25 de Abril dizendo com verdade o que foi e o que significou a revolução democrática e quais foram e são as suas realizações e os seus valores.
    Está porém em curso uma gigantesca tentativa de falsificação da história, que, invocando as comemorações, visa não comemorar mas denegrir, contestar e pôr em causa o 25 de Abril e a revolução democrática.

    Esse é o sentido geral e o objectivo cada vez mais descarado, em livros, artigos, folhetos, conferências, colóquios, entrevistas, debates, programas de horas inteiras em televisões e em rádios.

    O 25 de Abril, que nós comemoramos, significa o julgamento e justa condenação histórica do passado de opressão e terror fascistas, e daí a necessidade de informar e esclarecer, sobretudo as jovens gerações, do significado libertador da revolução democrática.
    A gigantesca operação de falsificação em curso, pretende branquear o passado de opressão e terror fascista e transformar as comemorações no julgamento e condenação do 25 de Abril. Assiste-se a revoltantes espectáculos em grandes órgãos de comunicação social. Silenciam-se as vítimas do fascismo e as forças às quais se deve a liberdade e a democracia e tratam-se como heróis torcionários e assassinos que vêm falar e negar os seus crimes como se estivéssemos ainda nos tempos da ditadura dos tribunais plenários e fossem eles os acusadores.

    O 25 de Abril que nós comemoramos, foi o culminar da resistência e da luta contra a ditadura fascista ao longo de 48 anos, luta da classe operária, dos trabalhadores, do povo, dos democratas, sem a qual não teria sido possível a revolução democrática. A grande operação de falsificação histórica procura ou silenciar, ou denegrir essa luta heróica de sucessivas gerações.

    O 25 de Abril que nós comemoramos foi o levantamento militar conduzido pelos capitães do MFA logo seguido do levantamento popular.

    A grande operação de falsificação em curso calunia a acção revolucionária do MFA e do movimento operário e popular procurando como que colocá-los no banco dos réus de um tribunal de opinião pública em que os juízes seriam os representantes do passado fascista. O 25 de Abril que nós comemoramos significou a conquista da liberdade e de um regime democrático com os seus elementos constitutivos de natureza política, económica, social e cultural. A grande operação de falsificação histórica em curso procura denegrir, acusar e condenar as grandes conquistas democráticas da revolução. Em torno dos chamados três DDD (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver) escrevem-se infindáveis textos e multiplicam-se, como espectáculos mediáticos, debates que, pela composição discriminatória dos participantes e pela condução dos próprios debates pretendem inculcar a ideia de que a revolução de Abril não democratizou, nem desenvolveu o país e que a descolonização foi uma história de erros e traições. Entre as grandes mentiras conta-se aquela que atribui à revolução democrática a destruição do aparelho produtivo e a actual crise económica e social que se devem com verdade à contra-revolução.
    O 25 de Abril que nós comemoramos contem a exaltante luta vitoriosa contra sucessivas tentativas de golpes reaccionários que pretendiam cortar o passo à democratização da sociedade portuguesa, conquistar o poder e instaurar uma nova ditadura.
    A grande operação de falsificação em curso, retomando infames invencionices, pretende que após o derrubamento do governo fascista quem quis tomar o poder e instaurar uma ditadura foi o PCP e não a reacção.

    O 25 de Abril que nós comemoramos é a democracia cujos elementos constitutivos fundamentais têm sido destruídos pelo processo contra-revolucionário que o actual governo com a sua política antidemocrática procura completar. As comemorações, por isso, significam também a luta actual, necessária e urgente por uma alternativa democrática ao governo e à política de direita.

    A grande operação de falsificação histórica procura inculcar a ideia de que a política de direita, nomeadamente do governo do PSD de Cavaco Silva é que constitui a verdadeira democracia contra projectos totalitários.

    O 25 de Abril que nós comemoramos é a revolução democrática na qual plena e frontalmente assumimos na altura e assumimos agora a responsabilidade da nossa intervenção e contribuição.

    A grande operação de falsificação histórica deforma, deturpa e inventa responsabilidades, absolve responsáveis e oculta cumplicidades.

    O 25 de Abril que nós comemoramos é a liberdade e a democracia para a qual o nosso Partido, sempre com os trabalhadores, sempre como o povo, deu uma contribuição sem paralelo, tanto pela luta heróica de gerações de comunistas no tempo da ditadura, como no período da revolução. A grande operação de falsificação histórica procura ou silenciar, ou caluniar nos termos mais vis a luta do PCP.
    O 25 de Abril que nós comemoramos é o 25 de Abril dos capitães do MFA, dos trabalhadores e do povo, e por isso, contribuindo para as múltiplas e variadas iniciativas comemorativas, estamos empenhados nas comemorações populares, que adquirem este ano particular importância. Neste sentido é apropriado fazer aqui um apelo para a participação na manifestação popular tradicional em Lisboa no dia 25 na Avenida da Liberdade e para a grande manifestação da CGTP-IN no 1º de Maio fazendo recordar o histórico 1º de Maio de 1974.

    Contrariamos atitudes e iniciativas que, a pretexto das comemorações, falsifiquem a história. E estamos empenhados em que as comemorações estejam à altura e sejam dignas da data e dos feitos que comemoramos.
    O 25 de Abril que comemoramos, não é um mero acontecimento passado que lembremos, mas um grande feito histórico que mantém marcas profundas na vida presente e contem experiências e valores indispensáveis para o futuro de Portugal. Viva o 25 de Abril!

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    terça-feira, 18 de Março de 2008

    Notas para uma melhor compreensão da teoria classista marxista-leninista

    No momento em que revolucionários marxistas comemoram em dezenas de países o 160º aniversário do Manifesto Comunista, em 26.02.2008, Ana Saldanha escreveu para odiario.info este artigo
    Ana Saldanha*

    « Assim como Darwin em relação à lei do desenvolvimento dos organismos naturais, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da História humana: o simples facto, escondido sobre crescente manto ideológico, de que os homens reclama, antes de tudo, comida, bebida, moradia e vestuário, antes de poderem praticar a política, ciência, arte, religião, etc.; que, portanto, a produção imediata de víveres, e com isso o correspondente estágio econômico de um povo ou de uma época, constitui o fundamento a partir do qual as instituições políticas, as instituições jurídicas, a arte e mesmo as noções religiosas do povo em questão se desenvolvem na ordem e em elas devem ser explicadas – e não ao contrário, como nós até então fazíamos. »
    (Engels, "Discurso no Funeral de Karl Marx”, 1883 in
    http://www.marxists.org/portugues/marx/1883/03/22.htm).

    A teoria transformada em força material

    Para melhor compreender o conceito de classes antagónicas fundamentais e do seu papel histórico, recuaremos ao jovem Marx e à evolução do pensamento filosófico da primeira metade do século XIX.

    Hegel preconizava uma filosofia da identidade, na qual o que é, « é o que deve ser ». O real não teria de ser transformado para se adaptar ao ideal, logo a prática histórica dos homens não poderia concretizar o ideal. Esta perspectiva idealista assenta no princípio de que « as formas concretas da vida social não são senão reflexos da essência, fenómenos da Ideia »[1]. O jovem Marx, ao contrário, defende que a teoria pode transformar-se em força material, partindo, não de pressupostos abstractos, mas da análise da realidade concreta. Em Hegel encontraremos a universalidade da Ideia, enquanto em Marx o ideal traduzir-se-á na consciência dos homens.

    Com Marx, o problema deixa de ser a simples concepção da realidade mas sim o de compreender o seu movimento interno, com vista à sua transformação.

    Sendo a teoria uma força material, um dos problemas que viria a ser colocado seria o da relação da teoria com a prática :

    « Para Marx e Engels, a práxis é essencialmente a prática social material que vai da acção e actividades práticas humanas à experiência científica e social, e da produção e reprodução social dos meios de vida materiais à praxis revolucionária. »[2]

    Marx proporá, assim, uma resposta dialéctica teoria-praxis, na qual ambos se determinarão reciprocamente.

    a) Da teoria à praxis

    Para Marx, as ideias possuem um poder que conduz à acção, e é este poder potencial que permite a transformação das ideias num acto.

    As estruturas teóricas do conhecimento e do saber não têm, assim, um fim em si mesmas, antes são função de uma praxis: « a teoria encontra na realidade da praxis social a sua expressão material, tende a provar que a sua aceitação e maior ou menor possibilidade (...) de implantação, tem raízes sociais objectivas, e especificamente de classe »[3].

    O jovem Marx afirmará que « (...) as revoluções necessitam de um elemento passivo, de uma base material. A teoria só se realiza numa nação na medida em que é a realização das suas necessidades. »[4]

    Marx e F. Engels compreendem, já no início dos seus escritos, a importância da articulação do conhecimento e da acção, de forma a conhecer o real para o poder revolucionar, na prática. A teoria teria, então, de ser introduzida « de fora » nas consciências, suscitar a consciencialização daqueles que devem tomar consciência de si e da posição material que ocupam.

    Em 1844, Marx defende que as revoluções sociais não poderiam ter lugar, apenas, na consciência dos homens; a força social material, seria, assim, determinante para transformar revolucionariamente. A prática tem de ser uma actividade transformadora do real, cujo objectivo será a edificação de uma nova ordem social. Esta materialização da ideia, mesmo se submetida « de fora » à consciência dos homens, emana, ela própria, das relações sociais das massas.

    A intervenção das massas na praxis social material seria, assim, fundamental para o processo de materialização das ideias e de intervenção no curso da História :

    « A interacção dialéctica do material e do ideal estriba numa base material histórica e concretamente definida : a praxis social. Ela, e só ela, como actividade prática sócio-histórica, consciente, racional, orientada para fins, possibilita o processo dialéctico do reflexo criador, e até antecipado, da realidade material pelo pensamento como ainda a realização material do ideal »[5].

    Um real que seja a realização material do ideal será um problema desenvolvido a partir de 1845, momento a partir do qual a concepção materialista dialéctica se elabora plenamente, a partir da concepção de « teoria como força material »: “a força material tem de ser deposta pela força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre a sua verdadeira face ao homem, desde que se torne radical.”[6].

    Será com base na concepção materialista da história que K. Marx elabora o conceito de classe.

    b) Dialéctica: a luta dos contrários

    Originariamente, dialéctica significava a arte do diálogo, a arte da discussão. Será mais tarde que nascerá a significação que constitui o seu âmago: a luta dos contrários.

    Com Hegel, a dialéctica (método que, pela procura dos contrários e pela sua oposição, permite chegar à verdade) torna-se a expressão do próprio movimento do mundo. Há, desta forma, um certo número de elementos que se combatem dentro de qualquer fenómeno, podendo esses elementos reduzir-se a dois: a tese e a antítese. A luta desses elementos contraditórios acaba por destruir a unidade do fenómeno, dando origem a um outro – a síntese. Esta não é a soma dos elementos contraditórios, mas antes a sua negação.

    Na continuidade da filosofia idealista hegeliana, Marx e Engels, na aplicação real que dela fazem, consideram que o que caracteriza fundamentalmente uma classe é a sua oposição a outra. As classes sociais são, desta forma, definidas a partir das relações de produção, em função do lugar que ocupam na relação de produção e de propriedade. Os proprietários dos meios de produção formam uma classe que se apropria da força de trabalho daqueles que deles são desprovidos, formando estes uma outra classe. É nesta relação de oposição que se considera o marxismo dialéctico: as classes sociais só existem porque se opõem.

    Quanto ao “materialismo”, este opõe-se ao “idealismo”, preconizado por Hegel: “A questão da relação do pensamento com o ser, do espírito com a Natureza é a questão suprema de toda a filosofia (...) Conforme respondiam desta ou daquela maneira a esta questão, os filósofos dividiam-se em dois grandes grupos. Os que afirmavam o carácter primordial do espírito em relação à natureza e que admitiam (...) uma criação do mundo, de qualquer tipo que fosse (...). Esses pertenciam à facção idealista. Os outros, que consideravam a natureza como o elemento primordial pertenciam às diferentes escolas do materialismo”[7].

    Para Hegel, idealista, é a Ideia que cria a realidade; a Ideia preexiste no estado puro no mundo e só se torna sensível realizando-se. Ao contrário, a teoria marxista considera que é a realidade a primeira – materialismo -, sendo no seu seio que se desenrola a luta dos elementos contraditórios:

    “O meu método dialéctico não só difere, pela sua base, do método hegeliano, mas é exactamente o seu oposto. Para Hegel, o movimento do pensamento, que ele personifica com o nome de Ideia, é o demiurgo da realidade, que não é senão a forma fenomenal da Ideia. Para mim, pelo contrário, o movimento do pensamento é apenas o reflexo do movimento real, transposto e traduzido no cérebro do homem.”[8].

    E, assim, nasce a concepção materialista dialéctica da História.

    A sociedade: grupos de indivíduos e não indivíduos isolados.
    Importância do conceito de classe

    O estudo isolado do indivíduo na sociedade dá lugar, com K. Marx, ao estudo das actuações de grupos de indivíduos que se diferenciam entre si pelo papel desempenhado no sistema de relações de produção e pelas condições de produção. Os interesses que, dessa forma, caracterizam a actuação do indivíduo serão determinados pela sua pertença a uma determinada classe.

    a) A violência não pode criar a propriedade privada

    E. Dühring, filósofo alemão, escreve uma obra na qual imagina uma relação entre dois habitantes (Robinson e Sexta-feira) numa ilha perdida, estendendo esta relação ao conjunto da sociedade sua contemporânea. Sexta-feira torna-se escravo de Robinson porque este possuía uma espada e, assim, podia dominar, pela força, o outro: “Vemos, pois, que o exemplo pueril, expressamente inventado pelo Sr. Dühring para nos provar que a violência é um factor "historicamente fundamental", na realidade nos demonstra que este factor apenas é um meio, enquanto o fim está precisamente no proveito económico.”[9]

    F. Engels responde a Dühring com a obra “Anti-Dühring”, na qual demonstra a importância das causas económicas da diferenciação da sociedade em classes:

    a) para se possuir um instrumento de violência é preciso fabricá-lo;
    b) a sua fabricação (factor económico) é a condição prévia de violência;
    c) a escravatura exclui-se perante uma baixa produtividade do trabalho, pois, neste caso, não existe produção de mais-valia.

    A divisão da sociedade em classes supõe, assim, um desenvolvimento da produção social no qual se produza o produto necessário e o produto acrescentado, sendo este, por sua vez, premissa da propriedade privada, a qual não pode ser criada pela violência, por si só.

    Foi o aperfeiçoamento dos utensílios e o desenvolvimento da divisão social do trabalho, com o aumento da sua produtividade, que criaram as condições económicas que conduziram à desagregação da estrutura da comunidade primitiva; é na esfera da produção que podemos compreender a divisão da sociedade em classes.

    Na obra citada de Engels, este afirma que “é preciso submeter toda a história do passado a um novo exame” e que se “verificou que toda a história passada era a história da luta de classes” e que “essas classes sociais, uma em luta contra a outra, são sempre o produto das relações de produção e de troca”[10]. Estava, assim, explicada a concepção materialista da história e a via explicativa da consciência dos homens a partir do seu ser, ao invés de explicar o seu ser a partir da consciência.

    O materialismo histórico demonstrará que a existência das classes se encontra ligada a determinadas fases de determinado desenvolvimento histórico da produção.

    b) A passagem das relações de igualdade da comunidade primitiva para as de dominação

    Na comunidade primitiva, a sociedade não estava dividida em classes, não havia exploradores nem explorados, pois o trabalho do homem era suficiente para se sustentar a si próprio – economia de subsistência (comunismo primitivo). As classes sociais estão associadas a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção, sendo uma consequência da privatização da terra e do aumento da produtividade do trabalho.

    Assim, terá sido o isolamento dos homens no trabalho e o aparecimento da propriedade privada que terá dado origem à dominação de um grupo de indivíduos minoritário sobre um outro. A origem das mais antigas classes exploradas encontra-se, desta forma, no processo de formação da propriedade privada

    Na sociedade primitiva, a defesa dos interesses comuns era confiada aos membros com maior autoridade. À medida que as condições criadas para produzir mais-valia evoluíam, os chefes militares e os sacerdotes tinham a possibilidade de agregar uma grande parte desse produto: os interesses particulares começaram, assim, a sobrepor-se aos interesses da sociedade e os servidores da sociedade tornaram-se senhores. A força de trabalho suplementar era, por seu lado, fornecida pelos prisioneiros de guerra (antes mortos ou assimilados pela tribo).

    Poderemos, então, observar que a estrutura social é determinada, em última instância, pela estrutura económica. Cada modo de produção dá lugar a um sistema específico de classes sociais, as quais se definem em função da relação com os meios de produção, sendo o antagonismo entre a classe que detém os meios de produção e a que deles se vê desapropriada que originará a luta de classes:

    “O homem livre e o escravo, o patrício e o plebeu, o barão feudal e o servo, o mestre de uma corporação e o oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas vezes oculta, abertas outras, que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em conflito. (...) Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeu, escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres de corporações, oficiais, servos.”[11]

    Dos cinco tipos históricos de modos de produção – comunidade primitiva, esclavagismo, feudalismo, capitalismo e socialismo – cada um deles é caracterizado por “um nível específico das forças produtivas e por relações de produção correspondentes”[12]. Comunidade primitiva e socialismo são modos de produção não antagónicos, enquanto esclavagismo, feudalismo e capitalismo são antagónicos, nos quais as relações de produção se baseiam, como referido, no controlo da propriedade privada dos meios de produção.

    Um novo período de desenvolvimento da sociedade humana inicia-se, desta forma, com a formação de classes antagónicas.

    c) As classes antagónicas (fundamentais) na sociedade capitalista

    A sociedade humana, esclavagista, feudal ou capitalista, rege-se pelo antagonismo das classes principais, cuja origem se encontra no modo de produção. Por um lado, temos a classe dirigente e organizadora das relações económicas e detentora dos meios de produção, e, por outro, temos a classe explorada.

    Na sociedade capitalista, os capitalistas constituem a classe exploradora, proprietária dos meios de produção e que reparte entre si a mais-valia criada pelos operários. Os operários, por seu lado, constituem a classe explorada, sem meios de produção e obrigados a vender a sua força de trabalho, recebendo, em troca, um salário. São eles os produtores directos da mais-valia que é apropriada pelos capitalistas: “na medida em que se desenvolve a burguesia, isto é, o capital, desenvolve-se, também, o proletariado, a classe dos modernos operários, os quais só vivem enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto o seu trabalho aumentar o capital”[13] e, enquanto “o escravo está vendido de uma vez para sempre, o proletário tem de se vender a si próprio, diariamente e hora a hora”[14].

    A luta de classes é, assim, desencadeada pela relação entre essas classes antagónicas.

    A classe explorada, no período das formações pré-capitalistas, teve como missão histórica o abalo dos pilares da antiga sociedade. A sua luta (escravos, camponeses) assumia, no entanto, formas desorganizadas e espontâneas que estavam, dessa forma, condenadas ao fracasso.

    Será, então, ao proletariado, organizado como classe, que competirá a destruição das velhas estruturas da sociedade e a criação de uma nova. Aliás, não possuindo propriedade privada, o proletariado apenas terá interesse na sua liquidação.

    A construção de uma nova sociedade, a sociedade socialista, tendo como vanguarda da luta o proletariado, executar-se-á, ainda, graças à união do proletariado com outros trabalhadores não pertencentes à classe operária. Assim, o proletariado, apreendendo os interesses das classes proletárias e dos outros trabalhadores, intervirá como seu dirigente e organizador:

    “A classe revolucionante entra em cena desde o princípio, já que tem pela frente uma classe, não como classe, mas como representante de toda a sociedade, ela aparece como a massa inteira da sociedade face à única classe, a dominante. E consegue-o porque, a princípio, o seu interesse anda realmente ainda mais ligado ao interesse comunitário de todas a demais classes não dominantes, porque sob a pressão das condições até aí vigentes ele não pôde ainda desenvolver-se como interesse particular de uma classe particular. A sua vitória aproveita também, por isso, a muitos indivíduos das demais classes que não se tornam dominantes, mas apenas na medida em que permite a estes indivíduos subirem à classe dominante.”[15]

    d) Classes não fundamentais

    As classes fundamentais são, então, as que representam os pólos antagónicos que se geram com o modo de produção de dominação. Cada uma dessas classes integra várias camadas.

    No interior da classe dominante da sociedade capitalista podemos considerar as seguintes camadas: a burguesia monopolista (monopolista de Estado); os médios e os pequenos capitalistas. A burguesia monopolista de Estado é pouco numerosa mas domina os principais meios de produção, incluindo-se nesta camada um grupo especial: os representantes do complexo militar-industrial. A burguesia monopolista une, assim, os grandes monopolistas e os círculos militaristas.

    Os pequenos e médios capitalistas dependem da burguesia monopolista de Estado, sendo frequentemente por esta pressionados. Este facto permite que participem, em determinadas ocasiões, na luta anti-monopolista.

    No interior da classe operária podemos considerar a camada dos quadros operários, que conduzem a luta contra a exploração capitalista, a camada da aristocracia e da burguesia operárias, que assume compromissos com a classe exploradora, e a camada dos operários oriundos da média ou da pequena burguesia.

    Para a compreensão da complexa estrutura da sociedade capitalista, teremos, no entanto, de fazer referência às “classes não fundamentais” e compreender o seu papel na luta de classes. Estas classes não reflectem a essência das relações de produção de um determinado modo de produção, podendo estar ligadas a vestígios dos modos de produção anteriores ou ao nascimento de novas relações de produção.

    Na sociedade capitalista actual, poder-se-á considerar como uma “classe não fundamental” (e não como uma camada da classe fundamental dominante) as camadas da pequena burguesia da cidade (artesãos, artífices, pequenos lojistas...) que, não conseguindo, muitas vezes, fazer face à luta concorrencial com a burguesia monopolista, caiem, frequentemente, na ruína, pelo que podem, ocasionalmente, unir-se à luta do proletariado. A pequena burguesia, no entanto, não desaparece e nunca desaparecerá sob o capitalismo; o capitalismo não só liquida como também cria a pequena burguesia.

    Na formação capitalista, fazem, também, parte das “classes não fundamentais” os senhores da terra e o campesinato. Campesinato que, devido à evolução técnica e à mecanização da produção, se encontra em progressiva erosão e, assim, condenado à ruína pelos monopólios e pelo órgão político que os sustém, o Estado. A precarização da situação das massas camponesas faz com que se aproximem e estabeleçam alianças com o proletariado na sua luta anti-monopolista.

    Além das classes fundamentais e não fundamentais, existem, ainda, “diferentes camadas intermédias”, como os funcionários e a intelectualidade, que incluem, no seu seio, membros das classes fundamentais e/ou não fundamentais. Estas camadas encontram-se em crescimento nos actuais países capitalistas.

    Hoje em dia, a grande massa dos funcionários e da intelectualidade encontra-se sujeita a condições precárias de trabalho que acentuam a sua exploração. Poderemos, desta forma, afirmar que assistimos a uma “proletarização” do trabalho assalariado, manual ou intelectual, o que cria condições para uma aproximação das lutas e reivindicações destas camadas com a luta do proletariado.

    Entre os funcionários e a intelectualidade encontram-se, ainda, os representantes do mais alto poder estatal administrativo (administradores das companhias, grandes juristas...). Ao contrário da grande massa de funcionários e da intelectualidade, pela posição e papel social que desempenham, estes representantes do poder unem-se à classe dominante.

    Por seu lado, à existência do Estado como aparelho distinto, que se especializa na promulgação e na execução das leis, temos, ainda, como Marx e Engels o fizeram, de considerar a criação/existência de grupos de pessoas distintas da classe dos capitalistas, que possuem atribuições e obrigações especiais – a burocracia, também ela uma camada social intermédia, situada entre o proletariado e a burguesia. Como esta camada exerce o poder directamente, tem tendência para realizar os seus interesses específicos, como camada, independentemente de, no seu interior, se encontrarem membros das classes fundamentais ou não fundamentais.

    G. Gurvitch, em 1966, considerou, ainda, que uma nova camada, igualmente intermediária entre o proletariado e a burguesia, nascera, no quadro da divisão do trabalho, com a introdução da democracia parlamentar burguesa e com o aparecimento dos partidos políticos. Tal camada seria o “tipo de político partidário”, “representantes da pequena burguesia, em virtude de o seu pensamento não passar além das fronteiras que o pequeno-burguês não ultrapassa na vida (..)”[16].

    e) Classes antagónicas e não antagónicas

    As classes podem ser fundamentais ou não fundamentais, mas também antagónicas ou não antagónicas. As classes antagónicas, como os proletários e os capitalistas, caracterizam-se pelo facto de os interesses de cada uma destas classes se oporem inconciliavelmente; por seu lado, as classes não antagónicas, como os operários e os camponeses, caracterizam-se pelo facto de possuírem divergências mas, também, de possuírem interesses comuns que podem possibilitar a sua aliança.

    O facto de algumas pessoas ou grupos se deslocarem de uma classe ou de uma camada para outra não significa que a estrutura classicista da sociedade desaparece, visto que as contradições e antagonismos que existem entre as classes não só perduram como continuam a acentuar-se.

    f) Divisão do trabalho na classe dominante

    Marx e Engels consideram, iguelmente, a existência de uma divisão de um tipo de trabalho no seio da classe dominante – o trabalho espiritual:

    “A divisão do trabalho, que já atrás (pp. [15-18]) encontrámos como uma das principais forças da história até aos nossos dias, manifesta-se agora também na classe dominante como divisão do trabalho espiritual e material, pelo que no seio desta classe uma parte surge como os pensadores desta classe (os ideólogos conceptivos activos da mesma, os quais fazem da formação da ilusão desta classe sobre si própria a sua principal fonte de sustento), ao passo que os outros têm uma atitude mais passiva e receptiva em relação a estas ideias e ilusões, pois que na realidade são eles os membros activos desta classe e têm menos tempo para criar ilusões e ideias sobre si próprios. No seio desta classe pode esta cisão da mesma chegar a uma certa oposição e hostilidade entre ambas as partes, mas que por si própria desaparece em todas as colisões práticas em que a própria classe fica em perigo, desaparecendo então também a aparência de que as ideias dominantes não seriam as ideias da classe dominante e teriam um poder distinto do poder desta classe. A existência de ideias revolucionárias numa época determinada pressupõe já a existência de uma classe revolucionária, e já atrás ficou dito o que era necessário sobre estas premissas”.[17]

    Admitem, ainda, a possibilidade de conflitos entre a classe dominante e os seus representantes políticos e entre estes e a burocracia, relativamente independente. Relembre-se que o grupo de representantes políticos e o grupo de burocratas – camadas intermédias entre o proletariado e a burguesia – podem ter na sua composição tanto membros da classe dominante como membros que se situam fora dela.

    A luta de classes

    Na sequência do aprofundamento da teoria marxista, Lénine distinguiu três esferas da luta de classes: a esfera da luta económica, a esfera da luta política e a esfera da luta ideológica.

    A luta política é o instrumento fundamental para o derrube da actual dominação de classe. Como forma decisiva da luta política, Marx e Engels consideravam a revolução – derrube ilegal e armado da ordem política e económica existente – o elemento de transformação da sociedade capitalista numa sociedade socialista. Tal não exclui, acrescentam, as formas legais da luta, conduzidas nos limites impostos pela sociedade capitalista, como a consciencialização e organização políticas do proletariado, que visam atenuar e denunciar a exploração: “Sobre o que repousa uma revolução parcial, uma revolução meramente política? No fato de emancipar uma parte da sociedade burguesa e de instaurar a sua dominação geral (...)”[18]

    A luta da classe dominada contra a classe dominadora inicia-se quando os operários começam por formar coligações contra os burgueses, por exemplo, em defesa do seu salário. “(...) Aqui e além a luta declara-se em motins. De tempos a tempos vencem os operários, mas só transitoriamente. O resultado real das suas lutas não é o êxito imediato, é a união dos operários que cada vez mais se propaga. Fomentam-na os meios crescentes de comunicação. (...) E só é necessária esta ligação para centralizar as muitas lutas locais, por toda a parte com o mesmo carácter, numa luta nacional, numa luta de classes”[19].

    Nas várias lutas, as forças políticas das classes opostas chocam entre si, dependendo o resultado da luta da mútua relação de forças.

    a) Dominação política, económica e ideológica

    A luta política, económica e ideológica da classe dominada existe como oposição à dominação igualmente política, económica e ideológica da classe dominante.

    A dominação económica baseia-se no controlo superior dos meios de produção, do processo e do produto do trabalho.

    A definição da relação de classe é a definição da relação de dominação económica.

    A posse de escravos (esclavagismo), terras (feudalismo) e capital (capitalismo) são as três formas básicas de propriedade, e são elas que definem as relações de subordinação e de superioridade no processo de trabalho e da apropriação dos produtos criados. No capitalismo, no entanto, a imposição económica substitui outras formas de imposição do trabalho, que se manifestavam no esclavagismo e no feudalismo.

    No primeiro sistema, o escravo é mercadoria e instrumento de trabalho; no segundo, o servo, ligado à terra e ao senhor feudal, é sua propriedade pessoal; no capitalismo, quem decide a relação de dependência do operário “livre” é o mecanismo de mercado e a imposição económica.

    A produção capitalista baseia-se no facto de que, sob a forma de salário, o operário obtém o equivalente ao valor da sua força de trabalho, mas não obtém o equivalente ao seu trabalho, já que “O valor da força de trabalho e o valor que ela cria no processo de trabalho são (...) duas magnitudes distintas.”[20] O excedente criado pelo operário e apropriado pelo capitalista constitui a mais-valia, na qual se baseia a essência mesma da produção capitalista:

    “(...) não importa ao processo de criação da mais valia que o trabalho de que se apossa o capitalista seja trabalho simples, trabalho social médio, ou trabalho mais complexo, de peso específico superior. Confrontado com o trabalho social médio, o trabalho que se considera superior, mais com¬plexo, é dispêndio de força de trabalho formada com custos mais altos, que requer mais tempo de trabalho para ser produzida, ten¬do, por isso, valor mais elevado que a força de trabalho simples. Quando o valor da força de trabalho é mais elevado, em¬prega-se ela em trabalho superior e materializa-se, no mesmo es¬paço de tempo, em valores proporcionalmente mais elevados. Qualquer que seja a diferença fundamental entre o trabalho do fiandeiro e o do ourives, à parte do trabalho deste artífice com a qual apenas cobre o valor da própria força de trabalho não se distingue qualitativamente da parte adicional com que produz mais valia. A mais valia origina-se de um excedente quantitativo de trabalho, da duração prolongada do mesmo processo de trabalho, tanto no processo de produção de fios, quanto no processo de produção de artigos de ourivesaria.”[21]

    A dominação política, por seu lado, baseia-se na garantia estatal do controlo superior dos meios, do processo e do produto de trabalho pela classe dominante.

    Ora, o órgão político de dominação de classe é o Estado, o qual exerce uma opressão política de classe, “segundo Marx, o Estado é o órgão de dominação de classe, o órgão de opressão de uma classe por outra, é o resultado da ‘ordem’ que legaliza e consolida esta opressão, amenizando os conflitos de classe”[22]:

    “Como o Estado é a forma em que os indivíduos de uma classe dominante fazem valer os seus interesses comuns e se condensa toda a sociedade civil de uma época, segue-se que todas as instituições comuns são mediadas pelo Estado, adquirem uma forma política. Daí a ilusão de que a lei assentaria na vontade, e para mais na vontade dissociada da sua base real, na vontade livre. Do mesmo modo o direito é, por seu turno, reduzido à lei.”[23]

    O Estado capitalista corresponde, desta forma, a uma ditadura da burguesia, sendo a dominação ideológica a consagração do sistema ideológico da classe dominante:

    " As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal [ideell] das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como ideias (...), das relações que precisamente tornam dominante uma classe, portanto as ideias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante também têm, entre outras coisas, consciência, e daí que pensem, na medida (...) em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda a sua extensão, e portanto, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de ideias, regulam a produção e a distribuição de ideias do seu tempo; que, portanto, as suas ideias são as ideias dominantes da época. Numa altura, por exemplo, e num país em que o poder real, a aristocracia e a burguesia lutam entre si pelo domínio, em que (...) o domínio está dividido, revela-se ideia dominante, a doutrina da divisão dos poderes, que é agora declarada uma "lei eterna". "[24].

    A destruição do órgão de dominação da burguesia terá, por seu lado, de ser feita revolucionariamente: “O grau transitório entre o Estado, órgão de dominação da classe dos capitalistas, e o Estado, órgão de dominação do proletariado, é precisamente a revolução, que consiste em derrubar a burguesia e quebrar, destruir a sua máquina de Estado(...). Que a ditadura da burguesia deve ser substituída pela ditadura de uma classe, do proletariado, que aos «graus transitórios» da revolução se seguirão os «graus transitórios» da extinção gradual do Estado proletário (...)”[25]

    b) Ideologia e classe dominada – a consciência de classe

    A ideologia proletária é incomparável a todas as outras. É uma ideologia privilegiada, já que é posta em prática com a finalidade de transformar o mundo e de terminar com a existência de classes e, consequentemente, com a existência das próprias ideologias.

    Foram Marx e Engels quem distinguiu, pela primeira vez, “situação de classe” e “consciência de classe”.

    Ora, as classes não são meros agregados estatísticos, não são apenas “classes em si”, podendo transformar-se em classes “para si” e, assim, adquirir consciência de classe, ou seja, consciência da sua identidade e dos interesses comuns aos seus membros, inserindo-se, dessa forma, na luta de classes.

    A burguesia, que teve, na história, um papel revolucionário, excedeu-se no domínio da ideologia, surgindo a sua consciência de classe. O proletariado, por seu lado, “só toma consciência de si próprio por etapas. É apenas a ideologia comunista (...) que o vai ajudar a constituir-se definitivamente como classe”[26], sendo a etapa final deste processo a organização de um partido político que se proponha tomar o poder. Diz-nos o “Manifesto” que o “poder político é o poder organizado de uma classe social para a opressão de uma outra classe” e que o “Estado burguês é o organismo protector da sociedade capitalista”, sendo a burguesia moderna “o produto de um longo processo de desenvolvimento, de uma série de profundas transformações no modo de produção e de circulação”.

    Tal como a burguesia (que, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, lutou pelo domínio político exclusivo no moderno estado parlamentar), também o proletariado terá de passar por uma série de etapas no domínio político.

    O executivo do Estado moderno mais não é do que uma comissão para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa. Sendo, inicialmente, a classe explorada pela burguesia, o proletariado emancipar-se-á gradualmente e tomará consciência de classe; “aproveitando-se dos conflitos entre a burguesia e os proprietários fundiários, e reforçado pela integração, no seu seio, de grandes porções da pequena burguesia industrializada, o proletariado arranca ao poder político satisfações parciais que lhe darão a possibilidade de fazer a Revolução”[27]. Esta distinguir-se-á da Revolução burguesa pelo facto de que terminará com as classes e com o próprio Estado.

    Assim, para Marx e Engels, a mudança das condições de vida e de existência dos homens em sociedade muda o seu modo de ver o mundo e leva-os a adquirir (caso não a possuam) a consciência de pertença a uma determinada classe. Com o intuito de defender os seus direitos, o operariado agrupa-se numa classe: “Será necessária uma inteligência profunda para compreender que com as mudanças nas condições de vida dos homens, nas suas relações sociais, na sua existência em sociedade, mudam, também, as suas concepções, as suas maneiras de ver, os seus conceitos, numa palavra, a sua consciência. (...) A exploração de uma parte da sociedade pela outra é um facto comum a todos os séculos passados. Não é de admirar, por isso, que a consciência social de todos os séculos (...) se mova em certas formas comuns, em formas de consciência que só se dissolvem completamente com o desaparecimento definitivo do antagonismo de classes”[28].

    V. I. Lenine e a teoria classista marxista

    V. I. Lénine, n’« Uma Grande Iniciativa », refere as características fundamentais das classes sociais:

    a) a POSIÇÃO num sistema historicamente determinado da produção social – as classes serão, assim, formações históricas, ligadas a um determinado sistema de produção social. As classes fundamentais distinguem-se pela posição ocupada no sistema de produção: uma dirige a produção e a outra realiza directamente o processo de produção;

    b) a RELAÇÃO com os meios de produção – esta característica constitui a diferença fundamental entre as duas classes fundamentais. A posição de uma classe na sociedade, o seu papel no processo de produção social, a fonte do seu rendimento, o seu papel histórico, tudo isto depende das relações que uma classe mantém com os meios de produção. A repartição dos meios de produção expressa-se através da propriedade privada. Estando esta ligada com as relações de dominação, para acabar com a exploração ter-se-á de acabar com a propriedade privada;

    c) o PAPEL na organização social do trabalho – a classe que possui os meios de produção é a classe organizadora, enquanto que a classe que delas está desprovida se encontra afastada da direcção da produção;

    d) o MODO de obtenção e as proporções do rendimento.

    Em conclusão, “Chamam-se classes a grandes grupos de pessoas que se diferenciam entre si pelo seu lugar num sistema de produção social historicamente determinado, pela sua relação (as mais das vezes fixada e formulada nas leis) com os meios de produção, pelo seu papel na relações na organização social do trabalho e, consequentemente, pelo modo de obtenção e pelas dimensões da parte da riqueza social de que dispõem. As classes são grupos de pessoas, um dos quais pode apropriar-se do trabalho do outro graças ao facto de ocupar um lugar diferente num regime determinado de economia social”[29].

    A actualidade da luta de classes

    Politólogos e sociólogos modernos preconizam o fim da luta de classes e, como tal, negam a própria existência das classes.

    Para tal, criam teorias funcionalistas de estratificação social, sustentando que a diferenciação social é um fenómeno universal e necessário em todas as sociedades, desempenhando uma função social necessária, com vista a distribuir os membros da sociedade pelas várias ocupações e papéis existentes.

    Segundo essa concepção, será, então, o prestígio ligado a cada ocupação que determinará o lugar do indivíduo na hierarquia social. A divisão em estratos é, desta forma, arbitrária, não existindo em agrupamentos definidos.

    Essas doutrinas assentam numa aceitação comum de certa hierarquia de ocupações, baseando-se em pressupostos como “a estratificação social sempre existiu e é uma necessidade de todas as sociedades”, que “é impossível definir sem ambiguidades uma escala de importância das ocupações” e que “existe uma mobilidade social total”[30].

    Ora, tais concepções têm como objectivo primeiro a aceitação do indivíduo do lugar que ocupa na sociedade, impossibilitando, assim, a sua consciência de pertença a uma determinada classe e, consequentemente, neutralizando a própria luta.

    O indivíduo terá, então, como único objectivo a progressão na “hierarquia social”. O sistema de exploração não teria, desta forma, alternativa, e a barbárie capitalista seria o fim último da História.

    Não fica, no entanto, explicada a desigualdade existente entre duas ocupações (ou funções) determinadas nem a existência, ao longo da História, dos vários sistemas de estratificação. Nega-se, por outro lado, a existência de grandes agrupamentos sociais em oposição e conflito com outros grandes agrupamentos.

    Por outro lado, na teoria funcionalista (ou nominalista), a mobilidade social é o fenómeno mais importante da estratificação social contemporânea, já que, segundo os seus teóricos, a sociedade caminha para a distinção das pessoas unicamente com base no mérito e na capacidade de cada um (“meritocracia”). Ora, a teoria marxista desvaloriza a importância da mobilidade social, uma vez que continua a ser muito pequena e que o sistema de classes não é por ela posto em causa.

    Negar a existência das classes sociais é negar a luta dos contrários, é negar a luta de classes antagónicas e fundamentais. Negar a luta de classes é negar a própria existência do capitalismo e constitui a aceitação passiva e continuada da exploração do Homem pelo Homem, num sistema onde os indivíduos seriam desprovidos de consciência.

    Tal concepção imposta pela ideologia da classe dominante pretende abafar as lutas sociais e aumentar o seu poder político e económico.

    A teoria classista marxista permite-nos compreender não apenas o funcionamento do neo-capitalismo actual como nos fornece uma resposta clara à destruição do sistema vigente: à união do proletariado e de todos os trabalhadores, corresponderá a construção revolucionária do socialismo, rumo ao comunismo.

    BIBLIOGRAFIA:
    Engels, Friedriche. “Princípios Básicos do Comunismo”. Trad. Álvaro Pina e outros. Lisboa: “Editorial Avante”, 1978.
    Gurvitch, Georges. “As classes sociais”. Trad. Sérgio Manuel Grácio. Lisboa: Iniciativas Editoriais (2ª edição), 1966
    Lénine, V. I. “Obras Escolhidas” em III Tomos. Lisboa: “Editorial Avante”, 1977.
    Marx, Karl. “O Capital”. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1970.
    Marx, Karl. “Salário, Preço e Lucro”. Trad. José Barata Moura. Lisboa : “Editorial Avante”, 2004.
    Marx, K. e Engels, F. “Manifesto do Partido Comunista”. Trad. Álvaro Pina. Lisboa: “Editorial Avante”, 1975.
    Marx, K. e Engels, F. “Obras Escolhidas”. Lisboa: “Editorial Avante”, 1982.
    Mleireles, H. E outros. “Notas de Estudo para a Ciência Política”. Coimbra, 1976/77.
    Vilhena, Vasco de Magalhães. Artigo” Karl Marx: a teoria, força material” in “O Militante”, Set-Out. 2004. Lisboa: “Editorial Avante”.
    Wesotowski, Wtoodzimierz. “Classes, Estratos e Poder”. Trad. Almir Gonçalves. Venda Nova-Amadora: Novo Curso Editores (1ª edição), 1977.
    http://www.culturabrasil.org/antiduhring.htm
    http://www.marxists.org/portugues/

    1-VILHENA, Vasco de Magalhães. Artigo.
    2-Idem.
    3-Idem.
    4-, K. « Introdução à crítica da filosofia dodireito de Hegel », 1843 - http://www.marxists.org/portugues/marx/1844/criticafilosofiadireito/introducao.htm
    5-VILHENA, Vasco de Magalhães. Artigo.
    6-K. « Introdução à crítica da filosofia dodireito de Hegel », 1843 - http://www.marxists.org/portugues/marx/1844/criticafilosofiadireito/introducao.htm
    7-MARX, K. e ENGELS, F. « Obras Escolhidas »., Tomo I (« A Ideologia Alemã", 1845)- http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm#i9
    8-Marx, K. “O Capital” (Prefácio da 1ª edição, 1867), Tomo I - http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/prefacioseposfacios.htm#posfacio1873
    9-ENGELS, F. « Anti-Dühring » - http://www.culturabrasil.org/antiduhring.htm#du19
    10-ENGELS, F. « Anti-Dühring » - http://www.culturabrasil.org/antiduhring.htm#du19
    11-MARX, K. e ENGELS, F. « Manifesto do PartidoComunista ».
    12-WESOTOWSKI, Wtodzimierz. « Classes, Estratos e Poder ».
    13-MARX, K. e ENGELS, F. « Manifesto do Partido Comunista »
    14-MARX, K. e ENGELS, F. « Manifesto do Partido Comunista »
    15-MARX, K. e ENGELS, F. « Obras Escolhidas, Tomo I ("A Ideologia Alemã", 1845) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm#i9
    16-GURVITCH, Georges. « As classes sociais ».
    17-MARX, K. e ENGELS, F. « Obras Escolhidas, Tomo I ("A Ideologia Alemã", 1845) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm#i9
    18MARX, K. « Introdução à crítica da filosofia dodireito de Hegel », 1843 - http://www.marxists.org/portugues/marx/1844/criticafilosofiadireito/introducao.htm
    19-MARX, K. e ENGELS, F. « Manifesto do Partido Comunista »
    20-MARX, K. « O Capital», Tomo I (Cap.VII) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/index.htm
    21-MARX, K. « O Capital», Tomo I (Cap.VII) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/index.htm
    22-LENINE, V.I. « Obras Escolhidas », Tomo III (« A Revolução proletária e o Renegado Kautsky ») - http://www.marxists.org/portugues/lenin/index.htm
    23-MARX, K. e ENGELS, F. « Obras Escolhidas », Tomo I ("A Ideologia Alemã", 1845) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm#i9
    24-MARX, K. e ENGELS, F. « Obras Escolhidas », Tomo I ("A Ideologia Alemã", 1845) - http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm#i9
    25-LENINE, V. I. « Obras Escolhidas », Tomo III (« A Revolução proletária e o Renegado Kautsky ») - http://www.marxists.org/portugues/lenin/index.htm
    26-GURVITCH, Georges. « As classes sociais ».
    27-Idem.
    28-MARX, K. e ENGELS, F. « Manifesto do Partido Comunista »
    29-LENINE, V. I. « Obras Escolhidas », Tomo III (« Uma Grande Iniciativa ») - http://www.marxists.org/portugues/lenin/index.htm
    30-MEIRELES, H. e outros. « Notas de estudo para a ciência política ».
    *Docente (do Instituto Camões) na Université Stendhal-Grenoble III

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    segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

    Schafik Handal - Um revolucionário exemplar

    por Miguel Urbano Rodrigues

    Foi em San Salvador há quase dez anos que conheci Schafik Handal. Encontrava-me na capital salvadorenha como observador internacional durante umas eleições legislativas.
    A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) transformara-se em partido político e conquistou tantos lugares no Parlamento como a Arena, a organização de direita que governava o pais sob a tutela dos EUA.
    Leonel Gonzalez, que era na época o coordenador da FMLN, marcou uma entrevista com Schafik, mas à ultima hora foi cancelada por um problema de agenda. Apenas trocamos meia dúzia de palavras. Ao despedir-se com um "fica para o próximo encontro" ele fez uma sugestão: "Estude um pouco a história de El Salvador se quiser compreender este povo".
    Recordo o pormenor por dois motivos.
    1. A entrevista falhada foi substituída por outra com Facundo Guardado, que se transformaria no líder dos "renovadores" da FMLN.
    2. O meu professor da Historia não apenas de El Salvador, mas de toda a América Central seria, transcorridos dois anos, o próprio Schafik.
    Quando voltei a encontrá-lo em Havana, a camaradagem estabelecida evoluiu para um sentimento de amizade. Ele estava na capital cubana para tratamento médico. Já fizera uma operação ao coração e os controles periódicos eram recomendados pelos médicos.
    Como se hospedava no Hotelito de 41, do Partido, onde eu então residia, aproveitei a oportunidade. Comíamos juntos quando possível e, após o jantar, mantínhamos longas conversas.
    Descobri que Schafik tinha um conhecimento profundo da história dos povos da América Central. Contrariamente ao que ocorrera no Caribe, onde os crioulos actuaram como detonador da revolução libertadora, a alta classe que descendia dos espanhóis permaneceu no México ao lado da Coroa e teve um papel decisivo no esmagamento das rebeliões populares lideradas pelos padres Hidalgo e Morelos. Após a independência, essa gente identificou um perigo na unidade da América Central e tudo fez, com êxito, para a fragmentar em pequenas repúblicas oligárquicas. No sec XIX, heróis centro americanos, como o revolucionário hondurenho Morazan, foram vítimas de tal política, obviamente incentivada pela Inglaterra e pelo nascente imperialismo estadunidense.
    Historiador sem cátedra, Schafick evocou episódios do tempo da guerra que me ajudaram a compreender melhor a epopeia da FMLN e, sempre apoiado em situações vividas, esboçou o quadro social de El Salvador após os acordos do cessar fogo, quando a Frente, finda a luta armada, passou a actuar no quadro institucional como partido político.
    Guardo dessas conversas uma lembrança muito forte porque cada uma delas continha lições de estratégia. Eu tinha consciência das dificuldades que nascem para um movimento revolucionário quando os seus quadros saem do mato para as cidades e são integrados, de repente, num quotidiano modelado pela burguesia. Em El Salvador houve ex-comandantes como Joaquim Villalobos que foram seduzidos pela atmosfera que os envolveu. De Oxford, onde lhe ofereceram um doutoramento, voltou tão contaminado pelo sistema que acabou líder de um partidinho por ele fundado, que acabou pró-EUA e aliado da direita.
    Schafik — que fora um dos principais comandantes da guerrilha — contou-me que até nos EUA, durante as conversações para o fim da guerra o cumularam de gentilezas, com altos funcionários do establishment a insinuar-se como "amigos" num processo de sedução de objectivos transparentes.
    Não esqueço a impressão desfavorável que na primeira visita a San Salvador me causou o então comandante Facundo Guardado. Era então um dirigente tão destacado que foi candidato pela FMLN à presidência da Republica. O seu discurso conciliador, tímido, aplaudido em Washington não ajudou. Mas conseguiu chegar à liderança do Partido.
    Quando em 2002 voltei ao país a fim de participar numa conferencia internacional de solidariedade com as forças progressistas da Colômbia, estava no auge a campanha mediática que apresentava os "renovadores" da FMLN como a alternativa aos revolucionários marxistas da velha guarda, satanizados como "conservadores", incompatíveis com a modernidade e com a democracia. Facundo, ainda na FMLN, mas já afastado da direcção, fora transformado pela direita no bom revolucionário, o homem no qual a esquerda, se lúcida, poderia encontrar o seu guia e salvador.
    Em Portugal os auto-intitulados "renovadores" do PCP, faziam então muito barulho nos media. A linguagem era muito semelhante apesar de diferenças abissais entre as sociedades salvadorenha e portuguesa. As afinidades impressionaram-me tanto que abordei o tema numa entrevista com Schafik, publicada no "Avante".
    Lá como cá, a campanha "renovadora" não passou da gritaria.
    Facundo é hoje um cadáver político e os portugueses que então proclamavam a sua impaciência militante para lutar pela "renovação" do marxismo comportam-se como anticomunistas e alguns não hesitaram mesmo em apoiar candidatos à Presidência da Republica do Partido Socialista, que é um partido vocacionado para administrar o capitalismo melhor do que a direita quimicamente pura. Na América como na Europa, a febre renovadora não está, aliás, mais na moda. Os seus porta vozes perderam toda a credibilidade.
    O Partido da FMLN, entretanto, cresceu na fidelidade aos princípios.
    A capital dos pais e as principais cidades são governadas por quadros seus. Schafik foi candidato à Presidência nas ultimas eleições e somente não venceu porque os EUA intervieram na campanha, ameaçando suspender as remessas de divisas dos imigrantes salvadorenhos se o candidato da oligarquia local — o homem de Washington — não fosse eleito. Num pais onde esse dinheiro é a principal fonte do PIB, a manobra de chantagem funcionou.
    O prestígio de Schafik permaneceu, porem, intacto. Era o deputado mais querido do povo de El Salvador e o mais combatido e caluniado pelas forças da direita.
    Fidel Castro tinha por ele uma grande admiração e tornou-a publica muitas vezes em Havana. Schafik era como revolucionário simultaneamente um homem de acção e um ideólogo.
    Não esqueço nem os seus ensaios políticos sobre grandes problemas do nosso tempo, nem as intervenções que lhe ouvi em conferências internacionais. Ajudou-me a compreender melhor a América Latina.
    Descendente de palestinianos, lembrava pelo perfil, apesar da barba, um romano antigo. Não sorria com muita frequência, mas tinha um sentido de humor que desmontava os adversários.
    Mais de uma vez, em conversa, lamentou não conhecer Portugal. Esteve quase a concretizar essa aspiração no ano passado, por ocasião do Encontro "Civilização ou Barbárie", em Serpa, mas o projecto foi adiado.
    Escrevi-lhe então e tinha a esperança de o reencontrar, finalmente, nesta cidade alentejana. O convite era permanente.
    Não virá. A morte abateu o combatente internacionalista de maneira fulminante no regresso da Bolívia onde fora representar o FMLN na posse de Evo Morales.
    De Schafik Handal se pode dizer que lutou e viveu como um revolucionário exemplar.

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    segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

    O jovem Chávez

    Um Partido feito à imagem do seu comandante (mas com menos semelhanças no conteúdo)

    Falar na trajéctoria do Movimento Quinta República é falar na trajéctoria do seu líder Hugo Chávez, por isso começemos por Chávez. É preciso ter a noção que o MVR (como é conhecido em siglas) nasceu com o único propósito de servir como plataforma eleitoral que levasse Chávez à presidência da Venezuela em 1999, sem Chávez este partido não existiria.

    Hugo Chávez começou a sua trajéctoria política desde muito cedo após ter ingressado no Exército venezuelano (1971, onde tinha entrado mais por motivos de concluir estudos do que para seguir carreira), o motivo inicial para a curiosidade política do jovem Chávez foi a par do contacto com a história gloriosa das lutas de Bolívar e outras heróis da independência, a investigação de Chávez do passado do seu bisavô materno, Pedro Pérez Delgado, que no início do século XX havia travado uma luta (semelhante à luta de guerrilhas) contra o ditador venezuelano Juan Vicente Gómez. Em finais dos anos 70 Chávez casa e tem 3 filhos (Rosa, Maria e Hugo).

    Durante a década de 70 e posteriormente Chávez era um oficial que comandava operações anti-guerrilheiras (combatendo os seus futuros aliados na selva, o PCV e outros grupos originados deste como o Partido da Revolução Venezuelana). Como preparação para a luta anti-guerrilheira Chávez lê e estuda Che Guevara e Mao Tse-Tung (o que tem um efeito contrário ao que os seus chefes esperam, pois estimula em Chávez simpatia em vez de ódio pelos seus inimigos circunstanciais). Alegures por esses dias e num processo crescente, Chávez conclui que é preciso um novo rumo para a Venezuela. Aí começa a história "orgânica" do MVR.

    O jovem Chávez

    Em 1982, Chávez junta alguns oficiais de esquerda e funda o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), em alusão aos dozentos anos do nascimento de Simón Bolívar, que se cumpriria um ano mais tarde. A organização clandestina deste movimento segue exactamente os mesmos moldes do nosso "Movimento das Forças Armadas" (MFA), só que ao contrário deste o MBR-200 já tem uma ideologia mais ou menos definida.

    Em 17 de Dezembro de 1982, no aniversário da morte de Simón Bolívar, jura perante o Samán de Güere (uma árvore com uma história épica na Venezuela), junto a Felipe Antonio Acosta Carlés, Jesús Urdaneta Hernández e Raúl Isaías Baduel, reformar o Exército e iniciar uma luta para construir uma nova República.

    Este movimento estava formado por oficiais médios cuja ideologia era bolivariana, misturada com algumas ideias de Simón Rodríguez e de Ezequiel Zamora ("El árbol de las tres raíces"). Por esta altura, Hugo Chávez inicia uma relação sentimental e ideológica com a historiadora e socialista Herma Marksman. Mantém também contactos com pessoas da esquerda venezuelana. Vai subindo patentes. Em 1988 é nomeado Ajudante do Secretario do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, situado no Palácio de Miraflores. Em 1989 observa com indignação como milhares de manifestantes são massacrados por forças do Exército no chamado Caracazo ('obra' sangrenta do presidente social-democrata Carlos Andrés Perez, actual arqui-inimigo de Chávez).

    Da esquerda para a direita: Chávez, Urdaneta e Arias Cardenas (os chefes da conspiração de 4-F)

    Em 4 de Fevrereiro de 1992, Chávez tenta derrubar o governo de Carlos Andrés Perez (CAP) com uma insurreição do MBR-200 ajudada por algumas milícias armadas civis de partidos de esquerda (neste campo a participação é escassa, só alguns militantes do esquerdista Causa R participam). Participaram na acção 5 tenentes-coronéis na chefia das operações, centenas de oficiais médios e milhares de soldados rasos. O golpe acabaria por fracassar apesar de algumas posições ganhas em intensos confrontos armados. A forma como alguns destes oficiais que acompanharam Chávez viriam no futuro a desertar a Revolução Bolivariana leva-me a concluir que o que motivou os oficiais venezuelanos foi mais uma indignação com as circunstâncias daquele momento em que se vivia o auge do neoliberalismo e sobretudo um "espírito aventureiro" entre os oficiais venezuelanos (esta última característa ainda me parece muito presente no MVR). Não havia portanto, ainda, o desejo de erguer uma Revolução Popular mas sim uma ilusão que a Democracia Burguesa era reformável ou humanizável.

    O objectivo da revolta era acabar com o neoliberalismo na Venezuela que estava a criar uma onda de pobreza e de fome por toda a Venezuela. Uma boa ilustração disso mesmo são as palavras do próprio líder do Partido da direita (o COPEI) no parlamento venezuelano (que na altura era oposição à AD, social-democrata, do presidente CAP) no dia seguinte à rebelião de 4-F, assim falou Rafael Caldera: "Não se pode pedir ao povo que defenda a democracia quando tem fome". Chávez é preso com todos os seus companheiros, mas não sem antes proferir para as Televisões venezuelanas aquelas proféticas palavras: "rendemo-nos e aceitamos a derrota... por agora".

    Em 1994 o então presidente Rafael Caldera indulta (amnestia) Chávez e todos os seus companheiros, diz-se que o PCV e o MAS (percursor do PODEMOS) o pressionaram a fazê-lo (por serem parceiros do seu governo e parte da sua base de sustentação). Mas recorde-se que Caldera tem um historial de indultar rebeldes esquerdistas, uma década antes Caldera havia amnistado os guerrilheiros do próprio PCV e de outros remanescentes das guerrilhas que combatiam o pacto de puntofijo (esquema de poder entre social-democratas e democratas-cristãos, ou seja, entre a burguesia). Chávez sai da prisão junto com os seus companheiros já rascunhando a ideia de prosseguir a via eleitoral (o que ainda suscitou alguma controvérisa no seio do MBR-200).

    Em 1997 é fundado o Movimento Quinta República (MVR) como sucessor político-eleitoral do MBR-200. Por esses dias as ideias de Chávez eram orientadas para uma espécie de Terceira via entre capitalismo e socialismo, misturada com um patriotismo bolivariano. Talvez oportunisticamente, a ambiguidade política que daí saía funcionava como cola entre vários grupos (um pouco antagónicos) da muito heterógena coligação chavista, então chamada de "Pólo Patriótico". Chávez juntou comunistas (PCV), maoístas (MRT e Liga Socialista) e outros grupos da esquerda radical com os social-democratas do MAS (Movimento Ao Socialismo) e outros grupos e personalidades nada interessados em 'beliscar' (e muito menos nacionalizar) o capitalismo venezuelano.

    Em finais de 1998 Chávez ganha as eleições presidenciais. Desde esse momento a configuração política da Venezuela começa a mudar de este a oeste e de norte a sul. Depois da aprovação da Constituição Bolivariana de 1999, vão se ganhando maiorias chavistas em todos os orgãos políticos do país, é o mesmo que dizer, maiorias do MVR.

    Em 2005 Chávez afirma que o Capitalismo não cabe no seu projecto revolucionário, já que - diz ele - é um sistema impossível de humanizar que ameaça a espécie humana. Chávez propõe construir um Socialismo do Século XXI, Bolivariano e Venezuelano. A ideia do novo Socialismo sacode o MVR, muitos - essencialmente os social-democratas dentro do MVR - não gostam nada da ideia, mas a maioria acolhe o novo objectivo estratégico com entusiasmo. Chávez tinha chegado à conclusão que não podia cumprir o seu objectivo de acabar com a pobreza na Venezuela até o ano 2021 se o capitalismo continuasse a dominar a Venezuela. A nova burocracia 'chavista' criada pelo MVR sente-se ameaçada, o partido e o líder começar ter vozes mais dissonantes. A solução de Chávez viria a ser criar o PSUV um ano depois (mas já lá iremos).

    O que é o MVR actualmente?

    O MVR é composto na sua espinha dorsal pelos companheiros de Chávez dos tempos do MBR-200 e sobretudo da insurreição do 4-F (4 de Fevreiro de 1992) que entretanto não o traíram. Aparte dessa espinha dorsal de ex-militares 'aventureiros', o MVR tornou-se uma força de grande influência na esquerda venezuelana e também nos orgãos de poder, daí que (independentemente de isto acontecer por boas ou más razões) tenha atraído para o seu interior militantes de todos os principais partidos de esquerda venezuelanos. Isto é aparte dos ex-militares pode-se enccontrar no MVR todo o tipo de ex-membros de outros grupos: maoístas, comunistas, social-democratas, etc. Também se pode observar neste partido - distintamente - uma ala mais revolucionária (exemplos: o ministro Nicolás Maduro, o presinte de câmara Juan Barreto e o governador Diosdado Cabello) e uma ala mais reformista (o ministro William Lara e o ex-vice presidente José Vicente Rangel), fácil de ver entre os principais dirigentes.

    Recorde-se que o MVR teve nas presidenciais de 2006, 41,66% dos votos (cerca de 2/3 de todos os votos chavistas). Também em 2006 o MVR dá por finda a sua missão histórica ao dissolver toda a sua estrutura no novo Partido Socialista Unido da Venezuela, seguindo um apelo do comandante Chávez.


  • “Retirado de Histórias do Chavismo, no Tirem as mãos da Venezuela”
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    segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

    E no entanto...

    Utilizar como método de análise a transformação do desejo pessoal em realidade, conduz, em regra, a conclusões erradas. Proferir afirmações dogmáticas sem as demonstrar dá maus resultados. Pôr na boca dos outros aquilo que nunca disseram já é do foro ou da ignorância pura e simples, ou da desonestidade intelectual.

    E no entanto...

    Desde há mais de 150 anos, ininterruptamente, dia após dia, políticos, analistas, comentadores e outros que tais, vêm repetindo a mesma lenga-lenga. Qual cassete estragada proclamam que o marxismo e/ou o marxismo-leninismo está morto e enterrado. Qual velho disco de vinil riscado, afirmam que o capitalismo é o “fim da história”.

    E no entanto...

    Será assim? Há, ou não, possibilidade de superar o capitalismo, através de outra sociedade? Estamos condenados a lutar por melhorias “cosméticas”, ou existe a perspectiva real de transformações profundas e significativas?

    Pela enésima vez recorramos ao B, A, Bá do marxismo-leninismo. Seguindo o postulado de que “a teoria não é um dogma, mas sim um guia para a acção”. Que não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária. Que a teoria esclarece e orienta a actividade prática. Enriquece-se com os ensinamentos da prática, afere-se na prática e, quando separada da prática, torna-se estéril, vazia e inútil.

    “O marxismo-leninismo é um sistema de teorias que explicam o mundo e indicam como transformá-lo”, diz Álvaro Cunhal em “O Partido com paredes de vidro”. E mais adiante “ O marxismo-leninismo surgiu na história como um avanço revolucionário no conhecimento da verdade sobre o mundo real – sobre a realidade natural, sobre a realidade económica e social, sobre a realidade histórica, sobre a realidade da revolução e do seu processo.”

    “O marxismo-leninismo é uma explicação da vida e do mundo social, um instrumento de investigação e um estímulo à criatividade.”

    Comecemos pela realidade económica e social.

    Terá a sua índole dialéctica sido superada pela economia dita de mercado? Ou, antes pelo contrário, não será que a multiplicidade de formas relacionais, que o sistema vai assumindo, não anula de forma alguma as suas leis basilares de funcionamento?

    Desapareceram as leis que os clássicos do marxismo-leninismo enunciaram como fundamentais, antes do mais, as leis do valor, da produção da mais-valia e das suas formas concretas (lucro, juro, renda) além de muitas outras?

    Para os comunistas o âmago da dialéctica consiste em proclamar que toda a realidade, seja ela económica, social ou política, é movimento. Que esse movimento se faz segundo condições internas de mudança, de transformação. Que a mudança não é apenas gradual mas que em dados estádios surgem saltos, surgem novas qualidades (entendidas como propriedades de um sector da realidade numa dada fase do seu movimento, do seu desenvolvimento).

    Que transformações quantitativas em dado momento levam a modificações qualitativas, da mesma maneira que modificações qualitativas conduzem num dado ponto a modificações quantitativas.

    E no entanto...

    Sabemos isto mas na nossa análise do dia a dia estamos constantemente a esquecê-lo.

    Em toda a realidade existem relações internas com certas características que contêm em si o seu contrário, levando a que desapareçam umas e surjam outras. Essas contradições são propriedades internas da realidade.

    Significa que na realidade objectiva existem elementos que se opõem e que é do seu choque que resulta o movimento global da realidade considerada com as suas transformações e as suas mudanças.

    “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e por consequência as relações de produção.” [1]

    Esta frase de Marx e Engels, hoje é menos verdadeira do que o era há mais de 150 anos atrás? Ou a realidade quotidiana das sociedades envolventes confirma-a (com novas formas, obviamente)?

    E esta outra: para o capitalista “o aumento crescente do seu capital torna-se indispensável para a conservação desse mesmo capital” [2] ?

    Que melhor prova há que o facto de as maiores 280 fortunas do planeta concentrarem em si mais riqueza que 2 mil milhões de pessoas (!!!)? Ou em Portugal onde a mesma proporção é de 20 famílias para 3 milhões de trabalhadores por conta de outrém? Onde a fortuna conjunta dos 10 mais ricos do País, está avaliada em 7 552 000 000 euros? Onde 10 (dez!) famílias acumulam uma fortuna superior ao rendimento anual de 2 milhões de reformados? São números, mas números arrepiantes que escondem uma realidade feita de miséria, sofrimento e dor. Uma realidade de quotidiana violação dos mais elementares direitos do homem e da mulher.

    E no entanto...

    Nada do que é humano nos é alheio, dizia Marx.

    Impõe-se o estudo em cada momento desta ou daquela característica do modo de produção capitalista. Desta ou daquela lei típica do seu funcionamento.

    Desta ou daquela das suas categorias modulares como valor de troca; valor de uso; mercadoria; força de trabalho; mais-valia e seus tipos; ciclo e rotação do capital; sua composição orgânica; reprodução simples e alargada das relações económicas; pauperização absoluta e relativa das classes trabalhadoras; lucro e taxa de lucro; formas transformadas da mais valia (lucro comercial; juro e renda); transformação dos valores de troca em preços com os preços de produção; a lei da queda tendencial da taxa média de lucro; as crises cíclicas de sobreprodução.

    Ao fazê-lo reafirmamos, no plano político e social, que o comunismo, enquanto “corpo de ideias” está vivo. Por isso hoje, aqui e agora, faz sentido ser comunista neste século XXI. Vale a pena sê-lo e lutar por esse desiderato.

    Em próximos artigos abordaremos o marxismo-leninismo e a realidade natural, a realidade histórica, a realidade da revolução e do seu processo.

    Notas:
    [1] “Manifesto Comunista”
    [2] Marx, “O Capital, ed. Fr., V.IV, p.74


    António Vilarigues
    Técnico de sistemas e comunicação

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    segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

    Livro Branco das Relações Laborais e o desvirtuamento do direito do trabalho

    O relatório de progresso da Comissão do Livro Branco das Relações Laborais e o desvirtuamento do direito do trabalho
    por Eugénio Rosa [*]

    O DISVIRTUAMENTO DO DIREITO DO TRABALHO PELA COMISSÃO DAS RELAÇÕES LABORAIS

    Um dos aspectos chocantes que sobressai imediatamente da leitura do "Relatório de Progresso da Comissão das relações laborais" é o desvirtuamento do direito do trabalho tal como é normalmente entendido, e que constitui a razão fundamental da sua existência.
    Como é sabido, o direito do trabalho surgiu para defender a parte mais fraca, que é o trabalhador, numa relação que é desigual: trabalhador /entidade patronal. Esta, no capitalismo, por ser a detentora dos meios de produção, tem a capacidade para "criar" emprego e, portanto, para dar emprego, ou seja, para dar ao trabalhador a possibilidade viver. A relação de desigualdade que daí resulta é ainda é agravada pela existência do chamado "exército industrial de reserva", que são os desempregados, cujo número crescente gerado pelo capitalismo aumenta o poder da entidade patronal. Neste contexto, o direito do trabalho tem uma função fundamental que é a de procurar restabelecer um mínimo de equilíbrio entre as duas partes dessa relação – trabalhador/patrão – que é à partida profundamente desigual. Para compreender melhor esta função basta imaginar o que aconteceria na vida real se a lei não estabelecesse um mínimo de 22 dias úteis de férias.
    Naturalmente as entidades patronais aproveitariam a necessidade do trabalhador de ter um emprego para poder viver, para impor, à maioria deles, férias de menor duração e sem direito a subsídio de ferias. O mesmo se pode dizer em relação ao horário de trabalho, ao subsidio de Natal, ao pagamento das horas extraordinárias, ao subsidio de turnos, etc., e mesmo em relação aos salários, cujos valores mínimos são estabelecidos quer através do salário mínimo nacional quer por meio das convenções colectivas, que são também uma importante fonte do direito do trabalho.
    Ora os autores deste "Relatório de Progresso" colocamse numa posição diametralmente
    oposta. Entrando num campo que não dominam, pois os seus conhecimentos científicos e a sua experiência profissional nada têm a ver com a gestão e organização das empresas (a especialidade da maioria deles, para não dizer da totalidade, é apenas o direito do trabalho), e revelando grande ignorância relativamente às causas do aumento da produtividade e competitividade, consideram que o aumento da competitividade das empresas e da economia passa pela desregulamentação e destruição da função principal do direito do trabalho, ou seja, adoptam o discurso e a óptica patronal.
    Para concluir isso basta analisar com atenção algumas passagens importantes do "Relatório de Progresso." Logo no início, na pág. 12, podese ler o seguinte: "Sob pena de ineficácia crescente, os sistemas de regulação dos mercados de trabalho carecem, pois, de adaptação para poderem responder adequadamente …às exigências da competitividade a que as empresas estão sujeitas". E logo a seguir acrescentam: "o processo de criação e destruição de emprego", que sustenta o crescimento do emprego, constitui "um processo de mudança económica que é indispensável para o progresso sustentável da sociedade e da economia portuguesas" E na pág. 13 afirmam: "salários mais altos e mais emprego é conseguido, na sua maior parte, pela substituição de empresas pouco produtivas por outras mais produtivas" . E concluem: " o objectivo central desta comissão é o de propor um conjunto de medidas de regulação do mercado de trabalho que promovam a competitividade da economia portuguesa e a coesão social do país".
    Portanto, embora terminem o discurso com a necessidade da "coesão social do país" para mitigar o seu verdadeiro objectivo central – subordinar o direito do trabalho à produtividade e competitividade das empresas – é todo um discurso economicista e patronal que vai enquadrar e dominar o trabalho da comissão e das suas propostas, como se conclui rapidamente da análise do documento apresentado.

    A INDIVIDUALIZAÇÃO DAS RELAÇÕES DE TRABALHO ACOMPANHADA PELA ELIMINAÇÃO DE CONDIÇÕES MÍNIMAS ESTABELECIDAS POR LEI
    Para atingir os objectivos enunciados anteriormente, a comissão decidiu, é ela própria que confessa, "consagrar na lei um núcleo duro de regras, inegociável e irredutível, abrindo espaço, no resto, para a negociação colectiva e, em certos pontos individual" (pág. 17).
    Portanto parece claro que a comissão defende um alargamento das situações em que, por negociação colectiva e, também por negociação individual, ou seja, por C.I.T., possam ser estabelecidas condições de trabalho ainda mais desfavoráveis para o trabalhador do que aquelas que já são permitidas pelo Código do Trabalho (recordemse os artº 314, 315 e 316
    do Código que permitem alargar, por contrato individual de trabalho, a mobilidade funcional e geográfica, tornando-os ainda mais gravosos para o trabalhador do que o disposto na lei).
    Comecemos pelo "princípio do tratamento mais favorável" que é uma questão central a nível quer do contrato individual quer da contratação colectiva. Assim, em relação a este princípio a comissão defende que apenas seja feito o seguinte: (1) Substituído o titulo "princípio do tratamento mais favorável" por "relações entre normas de diferentes fontes"; (2) Que se diferenciem os instrumentos de regulamentação colectiva negociais dos Regulamentos de extensão; (3) Que seja repensada a manutenção da permissão que o artº 531 do Código confere à contratação colectiva para impor soluções inderrogáveis aos contratos de trabalho, ou seja, a eliminação da disposição legal que estabelece que os CCT só podem ser afastados por contratos individuais de trabalho, se estes estabeleceram condições mais favoráveis ou se a lei estabelecer que o podem; (4) Eliminação dos Regulamentos de Condições Mínimas.
    É todo um propósito de individualização e de eliminação de condições mínimas que defendem o trabalhador contra a chantagem e o arbítrio patronal que está claramente subjacente em todas estas propostas defendidas pela comissão. E como se irá mostrar a omissão materializa esse propósito a nível de muitos outros pontos concretos.

    A CRIAÇÃO DE NOVAS FORMAS DE CONTRATOS ESPECIAIS E A EXPERIÊNCIA DOS TRABALHADORES RODOVIÁRIOS EM RELAÇÃO ÀS "INTERMITÊNCIAS"

    Na pág. 28 do "Relatório" a comissão defende "a possibilidade de vir a propor a criação de novas formas de contratos especiais, como sejam, o contrato de trabalho intermitente e o contrato de trabalho repartido", que ainda não existem em vigor em Portugal. Para se compreender as consequências deste tipo de contrato para os trabalhadores vamos citar a forma como estes tipos de contrato são tratados na Proposta de Lei sobre o Estatuto do Artista e num Acórdão do Tribunal de Justiça Europeu.
    Em relação ao contrato de trabalho intermitente, a proposta de lei apresentada pelo governo sobre o Estatuto do Artista estabelece o seguinte: "(1) No contrato de trabalho intermitente, os tempo de trabalho efectivo correspondem à duração e preparação dos espectáculos públicos, e os tempos de não trabalho correspondem aos períodos intercorrentes; (2) Durante o período de não trabalho, o trabalhador mantém a disponibilidade para iniciar a sua prestação de trabalho, desde que seja convocado pelo empregador"; (3) Nos períodos intercorrentes o trabalhador tem apenas direito a uma compensação não inferior a 30% da retribuição normal correspondente ao último período de trabalho efectivo". E como é vidente não tem direito ao subsídio de desemprego que é cerca de duas vezes superior àquela compensação.
    Em relação ao contrato de trabalho partilhado o Acórdão do Tribunal de Justiça Europeu de 17 de Junho de 1998 diz o seguinte: "O regime de trabalho partilhado foi introduzido na Irlanda, em 1984, por uma decisão governamental, essencialmente como medida para a criação de empregos. Esse regime previa um compromisso segundo o qual dois trabalhadores partilhavam, em condições de igualdade, um posto de trabalho a tempo inteiro, a fim de que os benefícios do sistema beneficiassem de forma igual cada uma das pessoas, permanecendo idêntico o custo do posto de trabalho para o empregador. O pessoal que optasse pelo regime de trabalho partilhado devia comprometerse por escrito a não exercer outra actividade profissional".
    Em relação ao contrato de trabalho intermitente, a comissão defende na pág. 31 do seu relatório "que se venha a incorporar na lei o conceito de período inactivo do tempo de permanência no local de trabalho, tendencialmente adquirido no âmbito do processo de revisão da Directiva 2003/88/CE" (pág. 31), ou seja, a consagração na lei que o "período inactivo do tempo de permanência como sendo o período em que o trabalhador tem de estar presente no local de trabalho , mas não é chamado pela respectiva entidade patronal a exercer as suas actividades e as suas funções, e que não é considerado como tempo de trabalho" ; portanto não é remunerado. E isto apesar de ser apenas uma proposta de revisão da directiva 2003/88/CE e de não ter ainda sido aprovada pela União Europeia. Podese dizer,
    para utilizar um dito popular, que a comissão "é mais papista do que o próprio papa".
    Para se poder compreender as verdadeiras consequências de uma norma desta natureza, basta recordar uma velha reivindicação dos patrões rodoviários, reivindicação essa que foi derrotada pela luta firme dos trabalhadores, que pretendiam introduzir aquilo que denominaram "intermitências" que consistia no sector de transportes, no poder da entidade patronal para interromper o horário de trabalho diário fora das chamadas horas de ponta, não contando tal período de interrupção como tempo efectivo de trabalho. Desta forma, a entidade patronal "pouparia" o pagamento de trabalho extraordinário ou o subsidio de turno quando obrigasse o trabalhador a trabalhar nas chamadas horas de ponta (entre as 7 e 9 horas da manhã e entre as 18 e 20 horas da tarde). É evidente que agora não seria apenas para os trabalhadores rodoviários abrangendo, por ex., também os do comercio, restauração, etc..

    A CRIAÇÃO DE NOVAS FORMAS DE ADAPTABILIDADE

    É evidente que os patrões não estão ainda satisfeitos com o regime de adaptabilidade constante dos artº 163, 164 e 165 do Código do Trabalho que permite às entidades patronais obrigarem os trabalhadores a trabalharem até 12 horas em certos dias, sem pagarem horas extraordinárias, em troca de trabalharem menos horas nos dias em que as empresas tenham actividade reduzida. E a comissão propõe satisfazer essa exigência patronal facilitando ainda mais o recurso ao regime de adaptabilidade, com o seguinte argumento: " a comissão "mostrouse plenamente ciente da importância que, para a boa gestão e produtividade das empresas (uma vez mais o discurso economicista e patronal), tem uma organização racional e adaptável do tempo de trabalho" (pág. 31). E como pretende dar satisfação a essa exigência patronal? Através da "reconfiguração do regime emergente daqueles preceitos … com vista a uma maior adaptabilidade dos horários de trabalho às necessidades concretas da gestão e das empresas". Com esse objectivo, a comissão defende duas novas formas de adaptabilidade: a grupal e a individual. Essas duas novas formas consistiriam em introduzir uma norma de "exigibilidade de acatamento da adaptabilidade por parte dos não aderentes desde que os aderentes constituíssem uma maioria identificada" e uma outra norma que estabeleceria que a sua aplicação "ficaria condicionada a adesão de uma percentagem inferior dos trabalhadores abrangidos pela proposta " (págs. 31 e 32). Desta forma, os trabalhadores que declarassem que não aceitam a adaptabilidade, desde que a percentagem dos que declarem que aceitam fosse superior ao mínimo estabelecido na lei, ficariam sujeitos a ela, o que não acontece actualmente de acordo com o disposto no artº 165 do Código do Trabalho que estabelece que os trabalhadores que declararem por escrito que não aceitam este regime não ficam sujeitos a ele.

    UMA MAIOR DESREGULAMENTAÇÃO DO TEMPO DE TRABALHO

    No campo da regulamentação do tempo de trabalho, a comissão afirma no seu relatório que "considera indesejável, porque tecnicamente inviável, que a lei continue a aspirar à regulamentação do tempo de trabalho" (pág. 29). Por isso, defende "que, em matéria de tempo de trabalho, a lei deve conter e limitar ao enunciado de alguns princípios gerais" . E esses princípios são nomeadamente os seguintes: "(a) Definição dos limites dos períodos normais de trabalho, semanal e anual, mas não diário; (b) Definição dos limites médios do trabalho efectivo, normal e suplementar" (pág. 30).
    Com idêntico propósito a comissão admite " a extensão do regime prolongado do trabalho aos fins de semana", e que "a lei pudesse prever expressamente os chamados horários concentrados (dois ou três dias de trabalho prolongado, seguidos de dois ou três dias de descanso, respectivamente)" (pág. 32). A comissão defende também na pág. 32 do seu relatório "a supressão do artº 168 do Código do Trabalho" que estabelece que a redução dos limites máximos do tempo de trabalho, sem diminuição da retribuição possa ser estabelecida por IRCT. Igualmente defende que o intervalo mínimo de descanso diário de uma hora constante do artº 174 seja reduzido para apenas 30 minutos, assim como a eliminação do nº. 1 e 2 do artº 180 que define o que se entende por trabalho a tempo parcial (igual ou inferior a 75% do tempo completo), bem como " o alargamento dos limites do trabalho suplementar" com " um regime de descanso compensador do trabalho suplementar realizado, com prejuízo da sua remuneração reforçada hoje estabelecida na lei e na contratação colectiva" (pág. 33).

    A REDUÇÃO MESMO DA REMUNERAÇÃO NOMINAL

    Na pág. 34 do relatório, no ponto denominado "redutibilidade da retribuição" a comissão defende que "poderá ser acordado entre o trabalhador e o empregador a redução da etribuição com fundamentos objectivos definidos pela lei e sujeitos ao controlo da Inspecção do Trabalho", portanto na linha da individualização da relação de trabalho e da eliminação de níveis mínimos de salários abaixo dos quais a empresa está impedida por lei de impor ao trabalhador. Desta forma, a comissão vem dar satisfação a uma reivindicação claramente patronal na linha também do defendido pelo Banco de Portugal no seu relatório de 2006, que critica a "rigidez dos salários nominais em Portugal" que, segundo ele, está a dificultar a adaptação das empresas no momento actual, dando assim voz a esta exigência patronal mas perdendo totalmente a sua credibilidade técnica e de independência.
    Mas não é apenas através de uma disposição desta natureza que a comissão pretende possibilitar a redução das remunerações nominais, e não apenas reais. Assim, na pág. 33 do seu relatório, como já foi referido, em relação ao trabalho extraordinário a comissão defende a "substituição da remuneração reforçada hoje estabelecida na lei por um regime de
    descanso integralmente compensador do trabalho suplementar realizado", devendo a lei viabilizar o chamado "banco de horas"; e na pág. 34 defende que "o montante do subsidio de férias seja igual à retribuição base correspondente à duração mínima legal de férias", quando o próprio Código do Trabalho estabelece, no nº 2 do artº 255, que o trabalhador "tem direito a um subsidio de férias cujo montante compreende a retribuição base e as demais prestações retributivas que sejam contrapartidas do modo especifico da execução do trabalho" como é, por ex., o subsidio de turno.

    ALTERAÇÕES GRAVES NO REGIME DA CESSAÇÃO DO CONTRATO DE TRABALHO

    Mas é no campo da cessação do contrato de trabalho (despedimentos) que as alterações defendidas pela comissão são mais graves. A comissão considera no seu relatório que "os modelos processuais do despedimento individual se têm revelado excessivamente pesados, existindo nesse domínio alguma margem da actuação do legislador para introduzir uma considerável simplificação da carga processual (pág. 36). Por isso defende que seja diferenciada "as consequências da ilicitude do despedimento… distinguido os vícios procedimentais dos materiais, em que os primeiros não conduzam à invalidade do despedimento, excepto se não existir audiência prévia do trabalhador" (pág. 37). Como é sabido, tem sido com base na incorrecção dos procedimentos que os tribunais têm anulado muitos despedimentos mandando reintegrar os trabalhadores despedidos.
    Mas é em relação ao despedimento por inadaptação que o defendido pela comissão assume aspectos extremamente graves. Neste campo, a comissão afirma que esta "modalidade de despedimento não tem aplicação prática e que há conveniência em aligeirar e clarificar alguns requisitos". E com esse objectivo defende "o alargamento da alínea a) do nº 1 do artº 407 do Código do Trabalho que faz depender o despedimento por inadaptação da prévia introdução de modificações do posto de trabalho" (pág. 40) certamente com o objectivo de estabelecer que não são necessárias aquelas alterações, que actualmente são exigidas por lei, para a entidade patronal poder despedir o trabalhador por inadaptação ou por ser inepto para o posto em que estava e assim poder despedilo com "justa causa", ultrapassando desta forma
    a proibição constitucional de despedimento sem justa causa. Esta proposta é muito semelhante, pelo menos nos seus resultados práticos, à defendida pelo governo para a Administração Pública de que bastariam dois anos de avaliações negativas da entidade patronal para ser levantado um processo disciplinar ao trabalhador e o seu consequente despedimento.
    E esse propósito é reforçado pelo facto da comissão defender "que o acento tónico deve ser colocado na impossibilidade de manutenção da relação de trabalho que teria origem na inadaptação ou mesmo na ineptidão do trabalhador" e também "a possibilidade de alargar a inadaptação aos casos em que esta seja antecedida de alterações na estrutura funcional do posto de trabalho, mesmo que tal não decorra de modificações tecnológicas ou dos equipamentos" (pág. 41), portanto situações que a entidade patronal poderia fácil e sem custos criar.
    Com idêntico propósito a comissão defende a eliminação da alínea a) do nº2 do artº 407 do Código do Trabalho, que relativamente aos trabalhadores que ocupem cargos complexidade técnica e de direcção, dispõe que eles só podem ser despedidos por inadaptação se se verificar " a introdução de novos processos de fabrico, de novas tecnologias ou equipamentos baseados em diferente ou mais complexa tecnologia implique modificação nas funções relativas ao posto de trabalho". Portanto, sem isso mesmo a comissão defende que o despedimento deverá passar a ser possível.
    É evidente que se estas propostas da comissão vingarem os despedimentos individuais ficarão grandemente facilitados, podendose mesmo falar da liberalização dos despedimentos individuais sem justa causa. Revelador das características das propostas patronais da comissão, é o facto de que Bagão Feliz, um homem do CDS, em entrevista dada ao Diário Económico de 27/07/2007 se insurja contra tal liberalização dos despedimentos tendo afirmado o seguinte: "Voltando ao despedimento por incompetência, receio que tal seja aplicado de uma maneira bastante desequilibrada, dificilmente comprovável, aproximandose do despedimento sem justa causa". E acrescenta ainda: O que é ser incompetente para além do que já está legalmente previsto? Como se afere isto?".

    A CADUCIDADE AUTOMÁTICA DAS CONVENÇÕES COLECTIVAS QUE AS ENTIDADES
    PATRONAIS CONSIDERAM COM "SOBREVIGÊNCIA ETERNA"

    As entidades patronais ainda não estão satisfeitas com o regime de caducidade automática das convenções colectivas de trabalho que consta do Código do Trabalho. Exigem ainda mais.
    E uma das suas exigências é que lei imponha a caducidade dos CCT a que chamam com "sobrevigência eterna". E o que é a "sobrevigência eterna" para os patrões? É uma clausula que existe em muitos CCT, sendo em muitos deles introduzida mesmo após a publicação do Código do Trabalho, que dispõe que " a convenção colectiva se mantém em vigor enquanto não for substituída". E a comissão vem dar satisfação, por "antecipação", àquela exigência patronal. Assim, na pág. 50, ponto 7.3, a comissão defende que "no caso da convenção afastar o princípio da caducidade, poderseia admitir, que esse regime de convenção vigorasse durante um prazo longo – por ex. 10 anos – após o qual ficaria sujeita ao regime geral de caducidade". Os comentários são desnecessário de tal forma são claros os interesses de classe que defende a comissão.

    A REDUÇÃO DOS DIREITOS SINDICAIS DOS TRABALHADORES

    A comissão considera que, nesta área, "a sobreposição de estruturas representativas dos trabalhadores com idêntica legitimidade representativa não tem vantagem do ponto de vista da protecção e da participação dos trabalhadores e implica encargos acrescidos para as empresas" (pág. 43). Mais uma vez a argumentação economicista e patronal. E por isso a comissão defende o seguinte: (a) Acabar com os representantes dos trabalhadores para a segurança e saúde no trabalho, o que revela ou a sua opção de classe ou então uma grande ignorância sobre a situação da segurança e saúde laboral em Portugal, e transferir as suas competências para as comissões de trabalhadores (pág. 44); (b) Para além do limite por empresa que já existe actualmente relativamente ao número de dirigentes com direito a crédito de horas e faltas justificadas a comissão defende que "seja estabelecido um critério baseado na representatividade que limite o número (global) de dirigentes sindicais beneficiários de crédito de horas e de faltas justificadas" à semelhança da proposta de lei do governo relativa a esta matéria para função publica, porque na situação actual, afirma a comissão, "o número de titulares de crédito pode ser excessivamente elevado onerando a economia" (pág. 44); (c) Em relação ao direito da comissão de trabalhadores e ao da comissão sindical de convocar reuniões dentro do horário de trabalho, no máximo 15 horas por ano cada uma delas, o que dá 30 horas por ano, a comissão defende " que deveria existir um único direito para realizar reuniões gerais de trabalhadores no local de trabalho e durante o horário de trabalho com a duração máxima de 20 horas por ano, reunião essas que podiam ser convocadas pela comissão de trabalhadores, pela comissão intersindical ou por 20% dos trabalhadores, passando a haver mais 10 horas por anos para reuniões de trabalhadores sindicalizados mediante convocatória da comissão intersindical" (pág. 46); a comissão defende a contratação colectiva a nível das empresas através da concessão de poderes de representação aos delegados sindicais" (pág. 47); etc; etc.

    28/07/2007
    [*] Economista, edr@mail.telepac.pt

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    sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

    Trabalhadores da Pereira da Costa em vigília há um ano


    Resistir compensa

    A razão e as decisões dos tribunais estão do seu lado, mas a Polícia só recorreu à força para fazer valer as razões do patrão. Perante a indiferença dos poderes, poderiam concluir que o crime compensa. Mas, ao fim de um ano de dura luta, os trabalhadores da Pereira da Costa mantêm-se unidos e apontam os resultados deste combate, firmes para o prosseguir. Em vez de serem despedidos sem indemnizações e com uma brutal carga de humilhação patronal, abandonando a construtora à especulação imobiliária, os operários preservaram a dignidade, conseguiram defender o principal património da empresa e esperam um acordo para o pagamento dos créditos. Já o Estado, grande credor neste caso, prima pela desresponsabilização, chame-se ela burocracia, inércia ou opção política.

    Contado a partir de 1 de Setembro, quando os trabalhadores despedidos ilegalmente começaram a cumprir o horário de trabalho junto aos portões da sede e estaleiro principal da Pereira da Costa, ou a partir de 1 de Outubro, quando a vigília passou a ser permanente, é assinalado com confiança e determinação este ano de luta de uma centena de operários, apoiados pelo Sindicato da Construção do Sul e, em geral, pelas estruturas da CGTP-IN no distrito, com a solidariedade do PCP.
    Os toldos, montados há um ano para abrigar os trabalhadores em vigília, são hoje uma «barraquinha», que apoia a permanência diária de vinte a trinta homens. Em dias de plenário ou quando necessário, o número chega a triplicar, asseguram João Serpa e Manuel Afonso. À nossa reportagem, estes dirigentes do Sindicato da Construção do Sul - a estrutura da CGTP-IN com mais forte presença na empresa - salientam que a luta envolve já todos os trabalhadores da Pereira da Costa: os que foram despedidos ilegalmente, em Setembro de 2006, e que a administração recusa reintegrar; os que, em Janeiro passado, suspenderam os contratos, por terem salários em atraso; e os que ainda estão a laborar, em condições muito precárias e que cujos vencimentos são pagos com grande atraso há vários meses (e a quem a empresa não passa recibos de remuneração, além de não entregar os descontos à Segurança Social).
    Ultrapassados já todos os prazos, era esperada ontem uma decisão do IAPMEI sobre o procedimento extrajudicial de conciliação, requerido pela empresa. Para o sindicato e os trabalhadores, o ideal seria que a administração aceitasse a proposta que apresentaram.
    Mas, até ao final da semana passada, não havia notícia de qualquer resposta da empresa. O presidente do conselho de administração, Luís Moreira, não é visto no estaleiro da Venda Nova há mais de seis meses, desde a carga policial contra os trabalhadores. Quem por ali se mantém - mesmo que diga que está ausente no estrangeiro, como sucedeu há poucas semanas, conseguindo assim mais alguns dias de extensão de prazos no IAPMEI - é Nuno Magalhães, administrador e genro do patrão.
    Independentemente do que ontem tenha sucedido, quanto ao procedimento extrajudicial de conciliação, está marcado para 6 de Novembro, no Tribunal do Comércio de Lisboa, o início do julgamento da insolvência da Pereira da Costa Construções, requerida pelos trabalhadores.
    Ainda este mês, deverão concluir-se as diligências para que os trabalhadores possam receber da Segurança Social o Fundo de Garantia Salarial.
    No dia 3 de Outubro, poderá ser resolvido outro importante problema. A comissão de credores e o liquidatário judicial da MB Pereira da Costa não conseguiram comunicar com os administradores da Pereira da Costa Construções e requereram, em Janeiro, que o Tribunal do Comércio de Lisboa, onde corre a falência, notificasse os administradores e o presidente da administração, para comparecerem perante a juíza e definirem uma data para realizar a escritura do imóvel. A escritura, de acordo com os compromissos assumidos pela Pereira da Costa Construções, deveria ter sido realizada em Novembro de 2005 (90 dias depois de assinado o contrato-promessa de compra e venda), mas tem sido impossibilitada por «sucessivas fugas» da administração, acusam os representantes dos trabalhadores.
    O comportamento de Luís Moreira neste caso terá causado algum embaraço no Sport Lisboa e Benfica - isso ficou evidente nos contactos com os responsáveis sindicais e no facto de a Pereira da Costa ter deixado recentemente de aparecer como patrocinadora da equipa de futsal. Mas o patrão continua a figurar como director-geral do clube para esta modalidade.
    Da parte das instituições e órgãos de soberania, a quem trabalhadores e sindicato foram insistentemente dando notícias dos desmandos patronais e da luta desigual na Pereira da Costa, não foi notado qualquer embaraço com o facto de, além de duas centenas de postos de trabalho, estarem em jogo verbas elevadas devidas ao erário público (Fisco e Segurança Social). «Faltou uma atitude política», sintetizou João Serpa, depois de evocar as respostas vagas ou o simples silêncio, por parte dos gabinetes do primeiro-ministro e de ministros, ou a «falta de agenda» do Presidente da República.
    Mesmo o presidente da Câmara da Amadora, que esteve uma vez no estaleiro, em Fevereiro, e prometeu ir levar o caso ao Governo do seu partido, «podia fazer muito mais, mas não fez». Neste caso, a preocupação agrava-se, porque estão também a ficar descredibilizadas as afirmações do autarca, quanto a impedir alterações do Plano Director Municipal que possam ir ao encontro de quem tem interesse nos terrenos da Pereira da Costa para negócios imobiliários, em vez da actividade industrial.
    No balanço deste ano de combate, pelo emprego, pela justa remuneração do trabalho, pelo cumprimento da lei e dos direitos dos trabalhadores, João Serpa e Manuel Afonso respondem, sem hesitar, que «o ânimo mantém-se», para «continuar a lutar contra estes tipos, que parece que não vivem num estado de Direito».

    Dias decisivos

    Nas páginas do Avante!, a luta dos trabalhadores da Pereira da Costa, como outras semelhantes, tem estado presente de forma quase constante. Ao assinalarmos um ano de permanência dos operários junto aos portões da empresa, evocamos aqui alguns dos momentos mais importantes desta história, a partir das notícias que fomos dando no jornal.


    2003

    Ao longo do ano, apesar de ter uma confortável carteira de encomendas, a MB Pereira da Costa acumula dívidas e atrasa o pagamento de salários. Por duas vezes, em Novembro e em Dezembro, os trabalhadores impedem a penhora das máquinas, ordenada pelo tribunal, e evitam o encerramento da empresa, resistindo à polícia de choque. As penhoras acabam por ser suspensas e é nomeada uma administração judicial.


    2004

    Impedida de participar em concursos públicos, a MB Pereira da Costa consegue manter o pagamento de salários. O Estado, credor maioritário, recusa abdicar de parte dos créditos, condição que os trabalhadores defendem (inclusive, em concentrações no Terreiro do Paço e em São Bento) para a viabilização da empresa e para evitar os prejuízos maiores que o erário público teria com a liquidação da construtora.
    A 30 de Novembro é decreta
    da a falência. Os trabalhadores decidem manter a laboração, até à realização do leilão, e continuam a insistir com o Estado para que apoie a viabilização.


    2005

    19 de Maio
    Até para cobrança de avultadas dívidas à empresa foi necessário recorrer à luta, como viria a suceder a 19 de Maio, com uma concentração frente à Câmara Municipal de Lisboa, para reclamar (e conseguir) o pagamento de uma dívida de mais de cem mil euros, verba suficiente para pagar os salários de Abril.

    26 de Julho
    No leilão que culmina o processo de falência da MB Pereira da Costa, o Estado aceita reduzir os seus créditos. O património, o pessoal e a carteira de encomendas são adquiridas pela Pereira da Costa Construções, de Luís Moreira, que se afirma determinado a desenvolver a actividade produtiva.



    2006


    9 de Maio
    É despedido um delegado sindical, apelando a Comissão Concelhia da Amadora do PCP a que os trabalhadores respondam com firmeza. Em comunicado, os comunistas criticam severamente a actuação da nova administração, que «não tem ainda assinada a escritura da empresa; não tem ainda todos os alvarás necessários; não paga atempadamente os salários; não desenvolve a capacidade produtiva da empresa; não tem matéria-prima no estaleiro; vende materiais da empresa; e, mais grave, levanta processos disciplinares a vários trabalhadores».

    14 de Julho
    É constituída uma «empresa na hora», denominada Preidacosta Construções, com sede social na Rua das Fontainhas, 49, Venda Nova, Amadora (a morada da Pereira da Costa) e cujos sócios são um filho e um sobrinho de Luís Moreira.
    Actualmente, no Tribunal Cível da Amadora, corre termos uma acção, movida pelos trabalhadores, impugnando a passagem de 20 viaturas da Pereira da Costa para a Preidacosta.

    30 de Agosto
    A cerca de 90 trabalhadores, a Pereira da Costa Construções comunica a intenção de despedimento, na base de processos disciplinares. O Sindicato da Construção do Sul, logo após o fim-de-semana, emite um comunicado em que considera tratar-se de uma situação de despedimento colectivo encapotado, depois de os trabalhadores terem rejeitado propostas da administração para rescisão dos contratos «por mútuo acordo».
    As notas de culpa, de que os trabalhadores foram dando conhecimento ao sindicato ainda durante os primeiros dias de Setembro, tinham 35 quesitos iguais para todos os funcionários.

    1 de Setembro
    Os trabalhadores despedidos ilegalmente são impedidos de entrar nas instalações. Apoiados pelo Sindicato da Construção do Sul, pelo Sindicado das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas e outras estruturas da CGTP-IN, decidem permanecer junto aos portões da sede da empresa, cumprindo o horário de trabalho e manifestando o seu protesto, com faixas e bandeiras.

    15 de Setembro
    A administração chama a Polícia, face ao protesto dos trabalhadores, concentrados junto aos portões da empresa. Em plenário, no dia 19, estes decidem manter o protesto junto ao estaleiro-sede. A partir de Outubro, a vigília passa a ser permanente, assumida como forma de defender o património da Pereira da Costa, garantia do pagamento aos trabalhadores e demais credores.

    12 de Outubro
    De manhã, antes de se integrarem no «protesto geral» da CGTP-IN, os trabalhadores da Pereira da Costa concentraram-se junto ao Ministério do Trabalho, exigindo uma intervenção pronta do ministro para repor a legalidade na empresa.

    16 de Outubro
    Os trabalhadores despedidos são convocados para, em dias diferentes, irem à empresa receber os seus direitos e as declarações para o fundo de desemprego. É-lhes exigido que assinem uma «declaração de quitação», em que reconheceriam as acusações constantes das notas de culpa, aceitariam desistir de recorrer aos tribunais, dariam como liquidados todos os créditos e ficariam obrigados a pagar uma indemnização, se não cumprissem a «quitação». Não assinaram e a empresa não pagou.

    8 de Novembro
    Um grupo de mais de uma dúzia de elementos de uma força privada de segurança, às ordens da administração, tenta retirar do estaleiro dois camiões carregados de cobre. Apesar de se apresentarem armados, a tentativa foi gorada pela resistência dos trabalhadores e pela presença da PSP, chamada por estes.

    23 de Novembro
    Os trabalhadores em vigília conseguem impedir uma tentativa de roubo de documentos e material informático. Luís Moreira apresentou-se com um grupo de homens estranhos à empresa e quase uma dezena de viaturas. Depois de ameaçarem os trabalhadores, a PSP foi chamada e deu razão aos operários. Mais tarde, estes ainda frustraram a retirada de pastas e computadores, que estavam escondidos num dos carros.
    Na madrugada seguinte, os mesmos seguranças tentaram forçar a entrada, mas voltaram a ser travados pelos trabalhadores e pela Polícia.
    Como a administração da Pereira da Costa se ausentara da empresa e já tinha apresentado, há uma semana, um processo de insolvência, era aguardada a nomeação de um gestor judicial.

    29 de Novembro
    A responsável pelo caso da Pereira da Costa na Inspecção do Trabalho de Lisboa (onde as participações eram já mais de duas dezenas) desloca-se finalmente à sede da empresa, onde reúne com o presidente do conselho de administração, que estava à sua espera. Mas não quis falar com os trabalhadores nem identificar os que comparecem todos os dias e estão impedidos de picar o ponto.

    30 de Novembro
    Trabalhadores deslocam-se até junto do apartamento, nas Laranjeiras, Lisboa, para onde a administração transferiu os escritórios da Pereira da Costa, depois de Luís Moreira e demais administradores terem abandonado as instalações na Venda Nova.
    A vigília dos trabalhadores voltou a impedir a retirada de bens.

    11 de Dezembro
    Os trabalhadores opõem-se e impedem a administração de retirar viaturas da empresa. Saíram igualmente frustradas as tentativas de divisão dos funcionários, com Luís Moreira a querer colocar na luta dos despedidos as culpas pelos problemas da empresa.

    14 de Dezembro
    Um grupo de trabalhadores vai à Inspecção do Trabalho, exigir uma intervenção eficaz para que sejam cumpridas pela administração as decisões judiciais de reintegração dos despedidos e para que sejam pagos os salários em atraso, que já ascendem a quatro meses.

    29 de Dezembro
    Jerónimo de Sousa volta a visitar os trabalhadores, no seu local de vigília, expressando-lhes a solidariedade do PCP e incentivando-os a prosseguirem a luta.



    2007

    10 de Janeiro
    A luta alarga-se a mais cerca de 50 trabalhadores, que estavam a trabalhar mas não receberam os seus salários. Ao abrigo da lei, suspendem os contratos e juntam-se aos camaradas em vigília.

    12 de Janeiro
    A administração da Pereira da Costa Construções retira o processo de insolvência que tinha apresentado e que poderia pôr em causa a aquisição da falida MB Pereira da Costa.

    1 de Fevereiro
    A entrada no sexto mês de luta (e quinto de vigília permanente) é assinalada com um almoço de solidariedade, oferecido pelo Sindicato da Cerâmica e que contou com a participação de Manuel Carvalho da Silva e outros dirigentes da CGTP-IN.

    22 de Fevereiro
    É recebida na Assembleia da República a resposta do ministro das Finanças ao requerimento apresentado pelo PCP a 8 de Novembro, sobre a aquisição da MB Pereira da Costa pela Pereira da Costa Construções. Diz o Governo que «já foi efectuado o contrato promessa de compra e venda do estabelecimento, faltando realizar a escritura do imóvel». O prazo para a escritura estava esgotado desde Novembro de 2005.

    2 de Março
    Realiza-se, de manhã, junto à residência oficial do primeiro-ministro, uma concentração de trabalhadores, exigindo que o Governo intervenha para pôr cobro às ilegalidades e garantir os direitos e interesses dos trabalhadores e do Estado. De tarde, os trabalhadores participam na acção nacional de protesto convergente da CGTP-IN.

    13 de Março
    Para dar cumprimento a uma providência cautelar, interposta pela administração, contestada pelos trabalhadores e a que dias antes o tribunal decidira dar razão, Luís Moreira comparece nas instalações da empresa, acompanhado de uma oficial de Justiça. Uma força policial é mobilizada para acompanhar as diligências de «restituição de posse» que, afinal, se destinaram a possibilitar a retirada de bens da empresa. A justa indignação dos trabalhadores foi reprimida, um dirigente sindical foi detido por algumas horas, um repórter do Avante! foi também agredido por agentes à paisana.

    14 de Março
    O Tribunal de Trabalho de Lisboa decide penhorar a facturação e bens móveis da Pereira da Costa Construções, como garantia dos créditos dos trabalhadores.

    10 de Abril
    O Sindicato da Construção do Sul revela que foi aceite pelo tribunal a contestação dos trabalhadores à providência cautelar de «restituição de posse», accionada pela administração e que esteve na origem da carga policial de 13 de Março.
    Os trabalhadores desencadeiam, no Tribunal do Comércio de Lisboa, um processo de insolvência da Pereira da Costa Construções.

    30 de Abril
    Chega ao fim o prazo inicial determinado pelo IAPMEI para que se concretize o procedimento extrajudicial de conciliação, proposto pela administração, em resposta à insolvência requerida pelos trabalhadores.

    20 de Junho
    O Sindicato da Construção do Sul emite parecer negativo, relativamente ao plano de viabilização apresentado pela administração no IAPMEI, apontando graves inconsistências nas contas de 2006, nas previsões até 2010 e na fundamentação da proposta para pagamento das dívidas, bem como nas garantias indicadas por Luís Moreira.

    31 de Agosto
    O sindicato entrega no IAPMEI a relação nominal dos trabalhadores despedidos em Setembro de 2006 e dos que, no início de 2007, resolveram o contrato de trabalho ao abrigo da legislação sobre salários em atraso. Esta responsabilidade cabia à empresa, que declarou ao IAPMEI não ter condições para a elaborar, pelo que o Instituto a solicitou ao sindicato. O valor em débito atinge, no total, quase dois milhões de euros (1.944.812,12 euros) e os trabalhadores aceitam a proposta da empresa de pagamento imediato de apenas 50 por cento, mas exigem garantias bancárias para o resto da dívida e o seu pagamento em doze prestações mensais, cujo valor não deverá ser menor que a remuneração-base de cada trabalhador.

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    Conhecer e defender Lisboa

    Um prédio arrogante e mal colocado

    Cinco razões para não aceitar a construção de um prédio de rendimento com dezenas de andares, entre o miradouro de Santa Catarina e a margem do rio Tejo, em Lisboa
    A primeira, uma questão de obscenidade. O arquitecto francês Emile Ailland. D.P.L.G., que teve notoriedade em meados do século passado, por obras, ditos e maneira de ser, quando cresciam torres por todos os arredores de Paris, costumava dizer que o que o chocava era o facto daquele tipo de edifício colocar o obsceno do quotidiano perante todos e acrescentava, colorindo o pensamento: "toda a gente pode dizer, lá vai o Dupont à casa de banho ou o casal Dupond está zangado porque ele está sozinho na sala e ela tem a luz acesa no quarto…". Milhares de janelas indiscretas.
    Se o prédio de rendimento que querem construir entre o miradouro de Santa Catarina e a margem do rio Tejo, em Lisboa, vier a concretizar-se (longe vá o agouro!) quem do jardim onde está a estátua do furibundo Adamastor tentar ver 180º de paisagem terá diante de si à altura dos seus olhos, empilhados por andares, dezenas de quotidianos que, mesmo que sejam charmosos, porque aquilo é para gente fina, não deixam de ser obscenos (no verdadeiro sentido da palavra, o que está fora de cena e não é para ser visto).
    Verdade seja dita que não haverá roupa estendida às janelas que isso é hábito de gente pobre que nunca lá poria os pés.
    A segunda, uma questão de verdade. Nada é mais enganador e distante da realidade que uma atraente maqueta, duzentas ou quinhentas vezes mais pequena que a realidade ("small is beautifull"), os pormenores desaparecem, as superfícies são todas lisas e brilhantes, um único material constrói tudo, não há manchas nem improvisos. Um prédio, e sobretudo um prédio destinado a habitação ou escritórios, é atingido sempre por um envelhecimento precoce e acelerado resultante da heterogeneidade dos materiais empregues e do próprio uso. Cada um manda em sua casa ou no seu local de trabalho e a sua vontade transparece para a rua que é de todos.
    Em Lisboa, no Saldanha, que é praça concorrida, num edifício recente e badalado, a fachada mostra, sem rebuço, as entranhas de escritórios desarrumados, cada qual iluminado e mobilado à sua maneira. É desgostante. Coisa semelhante ocorre em algumas das grandes janelas do rés-do-chão da Casa da Música, no Porto.
    E num prédio de habitação se houver varandas, as que já estão envidraçadas e as que virão a ser envidraçadas, mais as plantas, o mobiliário, os toldos e as cortinas, cada qual ao seu jeito, transformam frequentemente todo o edifício num bairro de lata, ao alto. Com o beneplácito da Câmara.
    O prédio de rendimento que pretendem construir, entre um miradouro e a margem do rio substituirá o "ver navios no Alto de Santa Catarina" que representa a nostalgia dos que quereriam partir, por uma vista, em primeiro plano, sobre um subúrbio de luxo, na vertical, mesmo que hábil publicidade o afirme "signé" e faça crer o contrário.
    Um edifício a ser singular e marcante, como se pretende que este seja, deverá garantir qualidade no funcionamento e na resistência ao tempo e não ser impositivo no seu novo-riquismo, mesmo que seja "high-teck" e brilhante.
    O monumento ao Infante D. Henrique e aos descobridores que vem da Exposição do Mundo Português compete em volume e altura com a Torre de Belém, mas é um monumento durável e respeita-a; a Torre de Controle do Porto de Lisboa confronta-se pelo desenho, a cor e os equipamentos mas é um equipamento cuja necessidade não se põe em dúvida; o Centro Cultural de Belém mimetiza-se nos materiais e na cor com os Jerónimos, mas afirma contemporaneidade no desenho e complementa-os.
    Nenhum é um prédio de rendimento, arrogante e mal colocado. Nenhum é um "edifício Coutinho".
    A terceira, uma questão de moral. Os proxenetas do urbanismo tomam por conta o corpo da nossa cidade. Compram-no, vendem-no, maltratam-no e ganham dinheiro com ele. Por vezes, mandam vir do estrangeiro grandes costureiros da arquitectura que o ataviam e o fazem vender mais caro. Escolhem para se exibir as melhores esquinas da cidade, as mais espectaculares vistas e, se for preciso, desrespeitam planos e calam condicionantes perante o deslumbre que o vedetismo exerce sobre os indígenas. Os promotores lucram e os políticos ganham votos.
    E com isso antecedem-se aos que à sua volta também quereriam torres nos seus terrenos e se todos tivessem torres nos seus terrenos a cidade incharia como a rã da fábula e estouraria. Já faltou mais.
    Uma advertência: a palavra proxeneta segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado vem do grego e significa "o que intervém num negócio", ganhou na língua portuguesa um significado mais específico que aqui não se descarta.
    A quarta, uma questão de cultura. As cidades são uma invenção do Homem e floresceram no Mediterrâneo. Os portugueses foram os primeiros a levar a invenção para o hemisfério sul. Foram hábeis em fazer e fazer viver as cidades: perceberam os sítios, entenderam os costumes e construíram em concordância.
    Basta olhar para Lisboa: edifícios baixos ligados ao rio e à faina, baixos mesmo quando albergam o poder no Terreiro do Paço, volumes desmultiplicados a atapetar as colinas, os cumes marcados por construções singulares a desenharem delicados perfis. Até o Centro Cultural de Belém, moderno, por ser ribeirinho é baixo e discreto, até as Amoreiras, post-modernas, se assumem em coerência com o cimo que ocupam, pena é que por tantas torres terem sido construídas à sua volta elas tenham perdido o seu faustoso protagonismo.
    Esta característica de Lisboa e a claridade que aporta à cidade e as vistas que consente da cidade para o rio e do rio para a cidade é sentida por todos, desenvolve sentimentos de posse e é, portanto, patrimonial.
    A quinta, uma questão de história recente. Os movimentos da população dinamizados para conservar e desenvolver esse sentimento evidenciaram-se em meados dos anos 80 com episódios das então chamadas Torres do Tejo que iam amesquinhar os Jerónimos e foram banidas, mas recentemente as três torres de Alcântara foram escorraçadas pela população, assim como na margem Sul a Manhatan de Cacilhas se tranquilizou e o elevador de S. Jorge contrário a estes princípios foi, com humildade democrática, retirado.
    Que razões haverá, pois, para que tudo isto seja contrariado e se venha a construir um prédio de rendimento, com dezenas de andares entre o miradouro de Santa Catarina e o aterro da Boa Vista, na margem do rio Tejo, em Lisboa?
    "… money, money… money!"

    Jornal da Voz do Operário
    Escrito por Francisco da Silva Dias
    Sexta, 21 Setembro 2007

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